EM TELA: “Revolução (Sem) Sangue” e a importância da memória

Em Tela, Revolução (Sem) Sangue

Hoje é 25 de Abril! Não há melhor forma de começar uma crónica, independentemente do tema. A democracia portuguesa faz 51 anos e não pode, hoje mais do que nunca, se deixar abafar sob o véu do luto. Hoje saímos às ruas em homenagem a todas e todos que permitiram que chegássemos aqui, e que longo caminho este.

A arte imita a vida, e no seguimento deste tão importante dia para a democracia e a sociedade portuguesa, o “Em Tela”, de cravos na lapela e em espírito festivo, traz-vos “Revolução (Sem) Sangue”. Este é um dos mais recentes filmes sobre o 25 de Abril, trazendo-nos uma outra ótica e humanizando o sangue do 25 de Abril. A obra fala-nos sobre as cinco pessoas que, pouco e timidamente, são lembradas e faladas e que morreram (algumas) a gritar liberdade, a gritar por todos nós.

Este filme, de 2024, conta a história e dá-nos os rostos abafados de Abril. Em homenagem a eles e ao próprio 25 de Abril, não esquecemos. Houve cinco vítimas mortais, e cerca de 45 feridos, durante a revolução de Abril. “Revolução (Sem) Sangue” conta-nos, com um olhar humano e inspirador, a vida destas cinco pessoas. Conta-nos os seus diferentes trajetos, os seus sonhos interrompidos e o sofrimento de quem vê os seus partir numa data que só nos devia trazer coisas boas.

A longa metragem de Rui Pedro Sousa contou com um anterior e longo processo de investigação, de rastreio destas pessoas. Cruzando dados e juntando informações, conseguiu-nos apresentar este emocionante filme, e o resultado dessa pesquisa foi surpreendente. Deambulamos, ao longo da narrativa, entre um otimismo e um pessimismo. À medida que a trama avança, são despoletados, no espectador, vários sentimentos contraditórios onde, a emoção que sabemos que o dia abarca choca com a noção do que vai acontecer a estas personagens.

João Arruda, Fernando Giesteira, José Barneto e Fernando Reis são alguns dos nomes que o filme não deixa esquecer, eles são vítimas, não de Abril mas do que existia antes. Do regime opressor, da PIDE/DGS que, arbitrariamente, disparou sobre os civis, fazendo quatro vítimas mortais. Para além destes, António Lage (funcionário público que trabalhava nas instalações da PIDE) foi baleado e acabou por falecer quando fugia.

Lembrarmo-nos deles não é desmerecer a Revolução dos Cravos, a revolução sem violência. Lembramo-nos deles para não darmos passos atrás, para darmos valor e protegermos a nossa democracia. É o dia mais feliz da minha vida”, grita João Arruda enquanto, acompanhado pelos seus colegas e camaradas, descia as escadas da residência e marchava euforicamente para as ruas de Lisboa na esperança de um dia 26 de abril onde fosse, finalmente, livre. Um dia onde a censura e a opressão não fosse uma realidade e que a condição libertas não fosse só uma construção teórica que lia em livros às escondidas.

Hoje celebramos! Hoje, de cravo ao peito e ao som de “Grândola, Vila Morena”, saímos à rua, por eles e por nós.

O filme encontra-se disponível na MAX.

Estrelas: 8,5/10

Imagem: DR/Jornal Referência

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