OPINIÃO: O x deixou a página 163 do diário à solta no ringue. Por sorte, não foi parar à máquina de lavar

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

12/06/2025

«Da minha cabeça. Não sou influenciável. Isto é original. Localização: pensamento próprio. Os críticos dirão só próprio.

Por vezes, reflito acerca do tamanho dos textos que maquino. Será a quantidade de vocábulos ajustada à mensagem que pretendo transmitir? Faltarão palavras? Devo escoar parte delas ou, até, economizar um bom punhado com o intento (finório, claro) de retardar ao máximo a crise financeira que se abaterá sobre a Europa? No fundo, agir à semelhança de Jerry e evadir-me das amarras de um indeclinável Tom? Ainda não houve lugar para o julgamento na medida em que ninguém se predispôs a tecer considerações sobre as questões anteriores. À Justiça, pejada de casos e morosa até ao tutano, pouparei esforços. À sociedade, encomendo, desde já, os serviços de crítica, chacota, insulto, destrato com pitadas de humor e muito falatório.

Ora, o principal objectivo passa por visar. Bem? Mal? Que diferença faz? Visem-me porque eu tenho à minha disposição viseira. Utilizo-a, sempre que necessário. Falem de mim. Atentem naquilo que eu digo, escutem com toda a sintonia sensitiva ao vosso alcance. A lama não apoquenta os aludidos de linhagem real, de fibra. Quando eu falo, a impressão da vossa pegada deve respeitar os limites da timoneira. Arremessem o vitupério ante a recreação e as manobras externas em prol da sabotagem. Os mal-entendidos germinam em descontextualizações vis e deturpações escabrosas. Fiquem com mais um ensinamento, já dizia não sei quem: se a cabeça é composta por dois ouvidos e uma boca, por alguma razão será».

Há quem diga que, com tais passagens, x tentou desconcentrar Simeonov enquanto recebia os primeiros murros em barda a fim de o desarmar. Contudo, mal a nova estrela do mundo digital acabou de pronunciar a palavra “será”, ainda não era possível avistar o sangramento. Impacientemente, o meu irmão – que assistira ao combate em directo – praguejava diante do ecrã porque estar acordado àquela hora urgia ossos e dentes desfeitos.

«”Ter o nosso nome enlameado não compensa”, dizem uns papalvos que escrevem textos e que se destinam ao comentário. Estas pessoas não sabem nada, a agnição dista deles como a fórmula da distância dista de todos os botânicos. Aliás, os botânicos servem para quê? Estudar plantas e colectar informação para investigações e trabalho de laboratório? Se empregassem os fundos destinados a esta “classe” a formações de criador de conteúdos, influenciadores, gestor de redes sociais, especialistas em SEO e outros, o país “pogerdia”. A palavra ficou com uma espécie de sublinhado a vermelho. Está a dar erro. Esperem, vou ao corrector automático de ortografia. Ok, já percebi. A palavra certa era “progredia”. Que todos os erros fossem estes…

Optar por sujar o nome e manchar a dignidade – embora a monda aniquilasse os vestígios excrementícios – é, em certas situações, proveitoso. Ser bom a chafurdar no pântano e deglutir alimentos com o auxílio dos objectos metálicos que normalmente constam numa mesa de refeição só pode e deve ser apreciado. Designa-se por meter as “mãos à obra”: de pinça em riste, com máscaras cirúrgicas a tapar a região do semblante que se situa abaixo da cana do nariz. Ler compenetradamente T. Harv Eker e Robert T. Kiyosaki e, de forma concomitante, entrar em batalhas argumentativas nas esterqueiras digitais com pessoas que insultam o trabalho de tantas outras – cujo tempo é dispensado para oferecer, de mão beijada, a alegriazinha da sua companhia neste mundinho a abeirar-se da ruína socio-económica – tem muito valor e negá-lo é fazer parte de um sistema tão denunciado quanto obsoleto.

A frontalidade está em vias de extinção. Para os que me seguem, sabem que constituo um dos últimos redutos, com todas as forças. Os cancelamentos custaram-me milhares de horas gastas na consulta de dicionários de editoras distintas, num périplo pelas bibliotecas nacionais, de Norte a Sul do país. As semanas mais duras da minha existência e não é um exagero! O contacto com bibliotecários, com aquele cheiro que corresponde a uma miscelânea entre mofo e o interior de um presbitério com novos acabamentos, bem localizado, mas pouco arejado. Estar impedido de aceder ao telemóvel enquanto reunia todo o conjunto de palavras atentatórias, discriminatórias e de extremo mau gosto».

Há quem diga que a afirmação de tais passagens acicatou a raiva do lutador húngaro, resultando numa sova sem precedentes. O sangramento tardou, mas não falhou. O meu irmão esboçou um sorriso, bebericou do copo com leite de que dispunha e beijou o avental com o desenho do galo de Barcelos, apontando para o céu. A sordidez empestava a sala onde nos encontrávamos, mas continuei sem soltar qualquer som.

«Agora, qualquer tipo fica conhecido. Mesmo qualquer rapariga, apesar de me custar a engolir. A mim e a outras almas puras. A valorização feminina faz-me espécie, até no mundo virtual, o meu predilecto. Já viram o conteúdo que muitas destas alucinadas produzem? Acham-se a última bolacha do pacote para falarem de política nacional e internacional, dos direitos e deveres cívicos, de alterações climáticas, de democracia, de liberdade, de participação activa, de violência doméstica, de violações, de emancipação. Já assisti a circos, a espectáculos de stand-up e a velórios com menos graça. Emancipação era uma tia que tinha em Borba, com buço, braços robustos e cerca de 11,4 dentes. A falta de noção destas miúdas é nefasta e varrerá o métier de mãe, de cuidadora do lar, da “chega-me isto” e da “dói-te a cabeça, mas para ires ao supermercado já não te dói, não é?” do homem.

Cresçam e apareçam. Quem sois vós? Ninguém! Quando eu divulgar este texto e ele bater em todas as redes sociais, incluindo as de extrema esquerda, ficará provado, uma vez mais, que o vosso mundo está a ruir. Portugal precisa de uma mudança e vai conhecê-la em breve. O mundo no qual pretendo viver está para breve, o mundo no qual vocês vivem está a encolher e sumirá. Tenham vergonha!

Mais um do vosso x, xx para os fãs, fofinho para os pais, querido para a querida, xxx para os vestidos, ídolo para o Andrew Tate, inteligente para milhares de futuros adultos».

Bronco para uma maioria, espero. Para o meu irmão, a definição que se afigura é a de “boneco”. Juntou-lhe “palerma”; “porco”, “racista”, “xenófobo”, “grunho”, “imbecil” e “filho da p***”. Aos 15 anos, o vernáculo adquire contornos irrevogáveis. Nesta situação em específico, prometi não contar aos pais.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

error: Este conteúdo está protegido!!!