OPINIÃO: Por uma defesa com menos despesa

Simão Mata, psicólogo

Politicamente Incorreto

Realizou-se entre os dias 24 e 25 de junho a Cimeira da NATO em Haia, reunindo-se nessa cidade dos Países Baixos os 32 países que representam a aliança atlântica. O objetivo principal do Encontro foi a fixação de gastos de 5% do PIB para despesas na área da Defesa até 2035.

A posição de Espanha foi de grande coragem que afirmou logo de início que a meta estabelecida era demasiado ambiciosa. Mas rapidamente essas intenções não passaram disso mesmo e, sem respaldo nem apoio por parte dos restantes países signatários do Tratado do Atlântico Norte, lá ficaram os espanhóis a tocar pandeireta sozinhos, deixando-os ao sabor dos desvarios de Trump, que ameaçou de imediato o Executivo de Pedro Sánchez de que iria aplicar taxas aduaneiras mais severas se este não cumprisse o acordo. E os restantes países signatários, que bem podiam defender e acompanhar Espanha nesse desiderato, lá disseram Ámen a sua majestade. O Governo português demostrou mais uma vez ser um bom aluno, colocando a fasquia dos 2% do PIB já este ano, tendo sido apoiado por PS e do Chega nessa medida. Recorde-se que gastamos atualmente cerca de 1.5% e o aumento proposto de meio ponto percentual implicará necessariamente um reforço de verbas na ordem dos mil milhões de euros para o ministério da Defesa.

A propaganda da Guerra e da Agressão tem levado a uma escalada armamentista sem precedentes no Mundo Ocidental que não é de todo aquilo que os outros blocos militares têm gasto ao longo destes anos por muita narrativa que se forje em sentido contrário. As despesas da Organização Internacional do Atlântico Norte representam hoje cerca de 55% dos gastos mundiais em Defesa sem contabilizar os 37% de gastos apenas dos EUA. Há, por isso, um verdadeiro ethos da brutalidade nos tempos atuais, naquilo a que Álvaro Vasconcelos designa como “Brutalismo”: “Brutalismo parece-me definir bem o mundo atual, se for entendido como sinónimo de condutas políticas e sociais niilistas, que recusam as regras do direito internacional, do Estado de direito e os direitos humanos” (crónica no Jornal Público de 26.06.2025).

A russofobia esteve bem patente no veredicto da Cimeira da NATO 2025: “Unidos para fazer face às profundas ameaçadas de segurança e desafios, em particular a ameaça a longo prazo apresentada pela Rússia à segurança euro-atlântica e a persistente ameaça de terrorismo, os aliados comprometem-se a investir 5% do PIB anualmente em requerimentos de defesa, assim como em despesas relacionadas com defesa e segurança até 2035” (Declaração da Cimeira de Haia 2025). Porém, segundo o Instituto Internacional de Investigação da Paz de Estocolmo (SIPRI) a NATO gastou, no ano de 2024, cerca de 396 Mil milhões de euros contra os 130 mil da Federação Russa. Lembra bem, por isso, Maria de Lurdes Rodrigues numa crónica no Jornal de Notícias no passado dia 26 de junho a propósito do reforço das lógicas belicistas no mundo ocidental: “Nesse passo, a Europa parece ter-se esquecido da paz e da metodologia da sua construção.”

Tendo em conta que bastaria a alocação de 1.3% do PIB para erradicar a pobreza em Portugal, só podemos ver qualquer aumento de despesa na área da Defesa como uma imprudência e irresponsabilidade, para usar termos simpáticos, e absoluta negligência face às condições de vida dos portugueses, para usar termos mais certeiros. Mesmo que o primeiro-ministro garanta (será?) que o reforço na Defesa não implicará cortes no Estado Social, só esta deriva armamentista devia de nos deixar a todos bastante incomodados. Quando temos cerca de 10% dos trabalhadores portugueses a viverem abaixo do limiar da pobreza e estando já cerca de 1/5 da população em risco real de exclusão social só nos resta perguntar onde está de facto o inimigo das nossas elites governativas. Enquanto não percebermos que o inimigo das nossas sociedades ocidentais está, sobretudo, no interior delas mesmas, andaremos sempre a perseguir a lógica do bode expiatório no exterior, impedindo-nos sistematicamente de analisar que sociedade estamos e queremos, de facto, construir.

Simão Mata, psicólogo

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