Politicamente Incorreto
Na passada quinta-feira o Parlamento reuniu-se para o tão proclamado Debate da Nação. Esse debate, espécie de fecho do país para banhos, encerra um período político e antecipa o próximo que se iniciará pela altura de setembro. Tal como os restantes debates parlamentares, este ficou marcado por impropérios entre os deputados, tendo, como habitual, no centro de tais desaguisados a bancada parlamentar do Chega e o seu presidente André Ventura (AV).
Já todos os partidos do espectro democrático começam a ficar demasiado cansados dos constantes insultos, palavrões e comentários de AV durante a vida parlamentar, o achincalho gratuito de minorias, mulheres e imigrantes. A ira começa a transbordar por todos os lados, comprometendo a paciência democrática daqueles que escutam tamanhas blasfémias. Se alguns são mais comedidos nos disparos e ataques, outros acabam por, muitas vezes, lançar ainda mais achas na fogueira parlamentar. Tudo isto se tem passado com uma forte conivência do atual presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar Branco, face aos comentários dos deputados do Chega e uma clara e desmedida condenação dos lapsos de cansaço que o espectro democrático do parlamento português apresenta perante os insultos recorrentes dos deputados da extrema-direita.
Após as declarações de José Luís Carneiro sobre AV e a sua “fanfarronice” neste último debate, verificamos, desta vez, comentários políticos a propor uma limpeza linguística aos nossos deputados, como se um parlamento fosse um lugar onde assistíssemos silenciosos aos Vivaldis e aos Mozarts desta vida. Assistimos até, imagine-se, a comentários televisivos pós-debate com académicos que discutiam com argumentos professorais a etimologia das palavras ali proferidas e o seu real sentido.
Acontece que a prosápia parlamentar é, desde o século XIX, um assunto na berra dos principais cronistas portugueses. Ela espelha a mediocridade dos nossos representantes, a tacanhez das suas aspirações democráticas e a profunda indiferença pelos reais problemas do povo. Até erros de citações dos vultos da nossa cultura por lá se cometem, confundindo-se José Saramago com Sophia de Mello Breyner. É por isso que em vez das tentativas de limpar o linguajar dos nossos deputados se torne mais necessário algumas sugestões de leitura aos nossos deputados. Quanto a mim, modesto cidadão, recomendo-lhes As Farpas de Eça de Queirós e de Ramalho Ortigão, obra de 1871. Num dos seus comentários ao parlamento português, Eça referia-se ao ambiente parlamentar novecentista da seguinte forma: “Piedoso Deus! As nossas câmaras, a nulidade de pensamento, a relice da palavra, o abandono de todo o decoro, os insultos e os desmentidos, a compostura plebeia e grossa, a ciência que lá falta, a intriga que lá abunda, a horrível baixeza daquela pocilga constitucional!”. Mas, caros deputados, não se esqueçam nunca que qualquer semelhança com os tempos atuais é pura e mera coincidência.
Simão Mata, psicólogo