Politicamente Incorreto
O genocídio que se vive em Gaza é provavelmente das maiores vergonhas antropológicas do nosso século. Desde outubro de 2023 que faleceram perto de 60 000 pessoas (algumas estimativas aproximam esse número das 100 000 vítimas), sendo que 122 foram diretamente devido à fome. Entram-nos pela casa adentro imagens de corpos esqueléticos e mirrados pelo sofrimento e pela dor, a procura aflita de homens, mulheres e crianças por géneros alimentícios, num cenário que nos deve, no mínimo, fazer corar de vergonha. Onde está, afinal, a inteligência artificial para nos ajudar a resolver este problema?
A situação humanitária no enclave palestiniano foi-se progressivamente degradando e chegou a um patamar de extermínio e genocídio. Em maio deste ano, o jornalista Gabriel Hansen escrevia no Jornal de Notícias: “As Nações Unidas receiam que 14 mil bebés na Faixa de Gaza possam morrer de fome nas próximas 48 horas” (21-05-2025). Desde essa altura até agora muito pouco se tem feito para evitar esta calamidade, com Israel a impedir o fornecimento de géneros alimentícios aos que estão condenados pela fome ou, mais macabro ainda, fuzilando pelas costas quem procura comida ou água.
O Padre António Vieira tinha uma frase que dizia: “Por tudo aquilo que fizeram, muitos serão condenados; Pelo que não fizeram, todos”. Nesse sentido, é absolutamente incompreensível a indiferença e apatia generalizada do mundo ocidental perante tamanhas atrocidades e, mais estranho ainda, é perceber toda a sua agilidade e rapidez na condenação de agressões de certos países, de determinados conflitos e regimes. No Editorial do JN do dia 26-07-2025 o jornalista Pedro Carvalho referia o seguinte sobre a carnificina em Gaza: “Julho está a ser um dos meses mais tenebrosos no quadro estatístico deste genocídio que o mundo vai normalizando. O Ocidente engole em seco, refém do espartilho de uma diplomacia de papel”.
Em cenários de tal gravidade não pode haver dois pesos nem duas medidas, não pode haver fronteiras geográficas, sociais ou políticas quando a dignidade humana está em causa, devendo reunir-se todos os esforços para a denúncia das situações de violência. Ter duas balanças para pesar a gravidade de factos que são todos eles horrendos, gerando “terroristas de primeira” e de “segunda estirpe”, é incorrer num erro que a História jamais deixará de inscrever na sua memória.
Simão Mata, psicólogo