Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
Quarta-feira, 17 de outubro de 2024
Querido diário,
Ei. Cucu. Está aí alguém? Por norma, está alguém de carne e osso. E com tinta vertida no corpo, possivelmente. Reunir estas três características atingiu a fasquia dos 76%, ou seja, três em cada quatro pessoas que avistamos diariamente valem-se de ter quantidades maiores ou menores de massa adiposa, o esqueleto a sobressair em determinadas zonas corporais e desenhos de diferentes traçados e tonalidades a preencher membros, troncos ou cabeça. O autor do estudo parte de um sólido empirismo – três meses no terreno – para a descoberta analítica. Por diversas ocasiões, o autor do estudo (quase) partiu certas zonas corporais face às ameaças e intimações constantes. Numa ocasião, o autor correu perigo e podia ter mesmo partido. Apesar de deter o conhecimento do facto, considerava prematura a verificação. O autor bloqueia a pormenorização de tais acontecimentos porque, e cito, “não vale dar atenção a essa gente. São pessoas que não merecem o esforço de outrem”. O autor do estudo sou eu. Fim de citação.
Crucifixo, 3 de novembro de 2024
Amigo diário,
Antevê-se um Natal inflacionado, de sapatinho justo e de mortes prenunciadas. Não deslindo outra forma de relatar aquilo que me obstrui o esófago que não a de me libertar de rodeios sintáticos. Hoje, digo-o de forma oficial e com a mais alta taxa de desprazer, assinala-se o estado mais avançado da decrepitude do Teletexto. Cruzei-me com dois jovens, portadores de auscultadores sem fio em tímpanos opostos e perguntei se tinham cinco minutos para o incómodo que admiti provocar. Miraram-se, a trouxe-mouxe, apartaram o dispositivo do ouvido e um deles soltou “fala, mano”. Depreendi ser o código de rua para “despacha-te, estou com parca paciência”. Questionei sobre a existência do serviço televisivo, país que o desenvolveu, tipo de serviço oferecido e informação recolhida, método de acesso. Após segundos de profunda reflexão, aquele que me pareceu ser o mais adulto tentou a sorte “imagina, eu acho que o teletexto é tipo as legendas de um programa que dá na televisão. Tipo, é outro nome que se dá as legendas. Mas tipo esse texto só passa na televisão e no telemóvel, ‘tás a ver? Tipo, se for noutro formato, não tem esse nome. É isso?”. A resposta anterior repetiu-se por cinco vezes, sempre que me dirigi à juventude.
Salto da Pêga, 22 de novembro de 2024
Resistente diário,
Há coincidências aterradoras. Neste momento, o relógio marca 14h23 e só agora recuperei as lembranças da noite de ontem. Que carraspana eu apanhei. Já não tenho idade para isto. Nem saúde. Se o exórdio dos jantares com os amigos mais próximos está grafado com algumas cervejas a fim de abrir a caixa de pandora, o epílogo demanda pelo rememorar de momentos do passado glorioso junto da espécie que, por norma, contribui para a carícia na virilidade. Parámos num bordel cujo nome penetrou as portas do esquecimento. Lembro-me de uma proxeneta tricotar na soleira da porta uma camisola de lã e de conhecer pécoras íntegras e cultas, apoquentadas com o facto de o grupo estar assedilhado. O meu amigo cônsul enamorou-se por uma jovem e passou a noite à conversa. O cartão de consumo estava pejado de carimbos e, a certa altura, o barman já não tinha mãos a medir. O grupo beneficiou disso e as borlas sucederam-se. Ontem foi, também, o dia em que terminei a leitura do livro O Cônsul-Honorário, de Graham Greene. Espero que o meu amigo não seja raptado entretanto. Acabei de acordar e ainda não reúno as condições – estéticas e psíquicas – para receber as autoridades.
Arrota, 13 de dezembro de 2024
Saudoso diário,
Lembras-te de ter escrito, há algumas semanas, que este Natal padeceria de mortes prenunciadas? Pois bem. Eis mais uma: a incúria no que concerne ao arrotar do alfabeto por parte dos imberbes. Quando era criança, a grande parcela do meu gangue era useira e vezeira nesta arte. Era, conjuntamente com o facto de defender o amigo das garras dos rufias do recreio e de marcar o golo vitorioso no jogo inter-turmas do intervalo grande, o pináculo do orgulho terreno. Aliás, quando privava com amigos de outras paragens e actividades, gabava sempre aqueles que eructavam com mais classe. A inveja que se instalava era palpável e motivo de ressentimento dali a instantes. No seio feminino, a habilidade fazia furor e a atracção galgava barreiras imaginárias e, até aí, pouco expectáveis de serem transpostas. Muitas histórias de amor começaram assim e toda a gente conhece casos de sucesso. Quanto a mim, dei esta luta por perdida bem cedo. Aos seis/sete anos, se bem me recordo. Arranjei outros estratagemas de engate.
Vale dos Azares, 29 de dezembro de 2024
Desconjuntado diário,
Antes de escrever, soltei uns brados. E continuo a soltar, tu é que não me ouves. Estou com os dois pulsos partidos. Não, não estou a escrever. Estou a ditar estes vocábulos à enfermeira mais paciente e delicada que conheci até hoje. Neste momento, se o olhar assassinasse, eu era matéria morta. Como a pele do cotovelo. Ainda a hei-de seduzir. Quer dizer, se calhar não. Ela riu desdenhosamente e não confere plausibilidade a esta hipótese. Passo por aqui só para relatar a tragédia: enquanto fazia escalada, por razões que desconheço, fiquei com os dois pulsos inertes. A fita adesiva tinha ficado no hall de entrada. Ainda não decorei as técnicas e, como tal, aplico-as incorrectamente. A vertigem atingiu-me. Desmaiei no ar. Quando recuperei os sentidos, constatei que tinha sido reanimado por um homem na casa dos 50.
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.
Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação