Há quem diga que a vida é uma tela em branco. Há alturas em que é pintada com algumas camadas de negro-marfim a óleo, mas, depois de um processo “lento” e “exigente” de espera, vem a cor, alegre e vibrante. Tal como se costuma ouvir: “Depois da tempestade, vem a bonança”. “After Darkness” (“Depois da Escuridão”) é o nome da exposição artística que Pedro Ferreirinha, um jovem natural de Mirandela, leva, até 31 de janeiro, ao Palácio do Raio, em Braga.
Foi na arte que encontrou uma forma de expressão e de abordar grandes questões políticas e sociais, mas também tradições ligadas ao Norte do país. Profissionalmente, seguiu a carreira de jurista, mas nunca deixou de alimentar o caminho da pintura.
“A arte surgiu muito cedo. Desde criança que desenhava constantemente, mesmo nas aulas. Os meus pais perceberam isso e propuseram-me um acordo simples: manter a atenção na escola e, em casa, dedicar-me à pintura”, conta Pedro Ferreirinha ao Jornal Referência, referindo que foram eles que lhe ofereceram o primeiro kit de pintura, telas, tintas e cavalete.
“Foi aí que comecei a trabalhar de forma mais séria. Hoje, sinto que não vir de um percurso académico artístico é uma vantagem. Não trago vícios, nem fórmulas, nem a necessidade de agradar a ninguém. Essa distância dá-me liberdade”, acrescenta. Mais recentemente, em 2023, decidiu criar uma página nas redes sociais, que conta com milhares de seguidores, para “partilhar esse trabalho e criar uma relação próxima com o público”.

E o caminho foi fluindo. Entre trabalhos pessoais e exposições, o jovem foi mostrando a um público cada vez mais vasto a sua arte, tendo passado, por exemplo, pela USF do Minho. “Nessa ocasião, apresentei, entre outras obras, ‘A Minhota’, um trabalho pensado para atuar num contexto muito específico, usando a arte como forma de ajuda / terapia aos utentes. A obra desconstrói elementos das romarias e símbolos tradicionais do Minho, como o traje e o galo de Barcelos, transformando-os em imagens de esperança, luz e caminho. Ninguém fica indiferente a esta obra”, afirma.
Na sequência dessa exposição e da “forte adesão do público” e as suas reações, Pedro Ferreirinha percebeu que houve “uma resposta muito clara” ao seu trabalho: “as pessoas aproximaram-se, reagiram e incentivaram-me a continuar. A partir daí, fez sentido procurar um novo espaço e dar continuidade ao projeto”. O Palácio do Raio revelou-se “o local e o momento certo”, acredita, pois, para além da carga “simbólica e histórica”, a exposição assinala os 10 anos do Centro Interpretativo das Memórias da Misericórdia de Braga e coincide com o encerramento do Braga 25 – Capital Portuguesa da Cultura.

Neste local, Pedro Ferreirinha apresenta pinturas que se situam entre “a figuração e a abstração”, abordando temas como a liberdade, exclusão e a condição humana, e também peças de instalação interativas que “convidam à participação do público”. As referências presentes partem das tradições do Norte de Portugal, do Minho a Trás-os-Montes, incluindo rituais, festas e imaginários populares e estendem-se a outras geografias e contextos culturais.
“O Norte faz parte do meu ADN. Há uma responsabilidade em falar dele. As tradições não vivem dos objetos nem das paisagens, vivem das pessoas. Do trabalho, da memória coletiva e do confronto com a realidade”, reconhece, indicando que a região entra na sua arte “como lugar vivido”. “É uma forma de assumir esse território, as pessoas e as tradições, de o defender e de o manter vivo”, realça.

A receção à exposição tem sido “muito positiva”. Pedro Ferreirinha sublinha que o Palácio do Raio é “um grande espaço com bastante circulação, o que permite um contacto constante com o público”. “Tenho sido frequentemente abordado por visitantes que se sentem impactados pelas obras, pela escala, pela intensidade e pelos temas. A exposição provoca reação, conversa e posicionamento. Para mim, isso é essencial enquanto artista. Arte que não provoca reação é só decoração”, defende.
O jovem artista explica que grande parte do seu trabalho, “sobretudo o mais político”, está ligado atualmente à ideia de liberdade “não como palavra bonita, mas como ‘problema’ real”. “Interessa-me refletir sobre a urgência de ‘cumprir Abril’, sobre o que isso significa hoje e sobre as fragilidades da democracia contemporânea. Essa preocupação está presente em obras como ‘50 Anos do 25 de Abril’, apresentada na Assembleia da República, ou ‘Charlie’s Retired – Muro de Berlim’, que reflete sobre a recusa em aceitar novos muros no século XXI”, continua.
“Na arte, para mim, não há temas interditos. A pintura é arma. Deve abordar as grandes questões.”
É na pintura que vê “uma forma de expressão muito direta e íntima”, mas ultimamente encontra “também um grande interesse no trabalho de instalação”. “Nesta exposição integrei elementos como a ‘Mantra Machine’ (roda de orações) e máscaras de Podence, pensados para interação. São obras feitas para tocar, rodar, usar, experimentar. Gosto dessa relação física, onde o espectador deixa de ser apenas observador e passa a fazer parte da obra”, destaca.

À pergunta sobre se tem algum trabalho preferido, Pedro Ferreirinha responde garantindo que todos “marcam”: “são pinturas a óleo, o que hoje é cada vez menos comum, pois exigem meses de trabalho, muitas horas de execução e de observação”. “Ainda assim, destacaria ‘A Minhota’ e ‘A Noite de São João’. São obras de grande dimensão, muito físicas, que representam bem as nossas tradições e concentram várias das preocupações centrais do meu trabalho”, salienta, mencionando que qualquer pessoa pode encomendar-lhe trabalhos específicos (através de e-mail – pedroferreirinhaart@gmail.com – ou das redes sociais).
Quanto aos próximos passos, o artista admite que “gostaria muito que os trabalhos fossem apresentados em Mirandela”, nomeadamente na Estação das Artes, ou em Bragança, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais. Depois disso, revela que “faz sentido seguir para Lisboa”, onde vive e trabalha atualmente, e, “num futuro muito próximo, levar o trabalho para fora de Portugal”.
Foto: Pedro Ferreirinha