OPINIÃO: Anonimato no século XXI – breve exposição

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Dia 21, quase dez horas volvidas após a meia-noite. O sino da igreja ribomba e acompanha a brisa taciturna, disfarce possível da disposição cinérea com a qual o dia brinda o Reino Animal. O despertador sacode o calor que, por mérito de lençóis e cobertores apropriados à estação invernosa, me consubstanciam e cospe a espinha para os instantes de frialdade que a separam do agasalho mais próximo. Reposto o termóstato corporal, um novo aviso rompe a satisfação sentida: a larica tocou à campainha; abri, resvalei o olhar na parafernália de bagagens e depreendi que a estadia perduraria, mesmo desconhecendo a data do check-out. Quando o estorvo se lança sobre a dicção, o consentimento é palavra de ordem.

Dirijo-me para a sala-de-estar e denoto a sucção da corrente elétrica por parte dos gadgets familiares. 100%, dispositivo carregado vezes três. As maquinetas aprontam-se para mais uma tareia polegar. Algumas surgem visivelmente maceradas e débeis. A extrema-unção afigura-se como a táctica mais aflitiva e adequada para os ecrãs prestes a cruzar a dédala do Paraíso tecnológico (uma cave – ou piso superior – de informáticos, com muitas peças e cabos em cima de uma enorme mesa rectangular e, a circunscrevê-los, dezenas de monitores?), mas o desconcerto não mora aí. A normalização do definhar do aparelho vestiu vison e olhou, sobranceiramente, sobre o ombro. Não era nada comigo. Morreu!? Morrerá em breve!? Investe-se noutro, porque o catálogo da Worten está pespegado ao frigorífico.

Em escassos segundos, o pequeno-almoço – desenxabido qual comida para diabético – foi deglutido. O lastro de migalhas transitou para o quarto onde me visto. Dardejado em fúria, invoco o iRobot Roomba 105 Combo Auto Empty, com autonomia para 120 minutos de labuta, clamor imediatamente atendido. Para os pontos que circundam a intimidade, segue – pese embora tardio – um esclarecimento: o vocativo não incidiu sobre o Roborock QV 35A, equipado com dois esfregões giratórios eleváveis e com tecnologia reactiva a fim de evitar obstáculos, incluindo navegação e mapeamento, pelo facto de o dito cujo ter suplantado a semana mais intrincada da sua curta existência. Roborock depurou a pocilga resultante de um convívio familiar.

A higienização é cumprida a preceito. Adeus, migalhas. Olá, roupa lavada, colónia, cara ornada com Nívea, dentes sem resquícios alimentares e crostas variadas, barba aparada com a ajuda de um pente a fugir para o pequeno e bigode no alvor da proeminência. Pela primeira vez, fendi a cratera. Antes de transpor a soleira, apalpei-me – a estima própria atinge valores medíocres – para certificar se estava munido do arsenal necessário à saída dos aposentos. Tudo estava no ponto rebuçado. Caminhei até ao ponto de recolha e esperei a boleia. Nenhuma questão acerca do local para onde me desloco? Nenhuma questão e vai um, nenhuma questão e vão dois, nenhuma questão e vão três. Vendido.

– Entre, Romão! Faça o favor! Então, como tem passado? Preparado para a próxima etapa da intervenção? Junte-se aos seus colegas e aproveite para petiscar ou beber algo. Talvez um café ou uma água. Trouxe ali uns biscoitinhos de canela que são uma delícia.

Abalado pela estridência vocal da anfitriã, ignoro o seu apelo e refogo todas as manifestações de um ser carrancudo que alguém pode erigir. Sento-me na cadeira mais distante dos tresloucados que habitam a sala, esfrego as palmas da mão no rosto e detenho-as ali – nesse instante, deparo com a não menção de espinafres para a quiche que projectei para o jantar – e fixo o papel incrustado na parte exterior da porta: “SALA DOS UTILIZADORES DE ELETRODOMÉSTICOS MUITO TECNOLÓGICOS E MODERNOS ANÓNIMOS. Por favor, desligue o telemóvel ou deixe-o numa caixa, à entrada. Aqui, somos todos iguais. A adição mata, mas estamos aqui para subtraí-la. Nota: na última sessão, aproveitámos a sugestão de um adicto e, a partir de hoje, podem adquirir o telemóvel da Chicco que vibra”.

A adicta curada – acham os que a visitam, mas a mim não me apanham – entra esbaforida na sala a desculpar o atraso, mas ainda tinha a tolerância de mais uns segundos.

– Romão, na semana passada, não teve oportunidade de nos relatar qual o ponto de situação relativamente à tecnologia e em que etapa do processo se encontra. Quero saber as novas peripécias. Foi capaz de encontrar um refúgio? Jogging? Padel? CrossFit? Yoga? Meditação xamânica? Drogas? Tabaco?

Vexado, respondi que me iniciara na costura e que tinha adquirido um gira-discos para escutar álbuns de que gostasse. Por vezes, expliquei, conjugava as duas actividades. A sala desata o nó e lança-se num burburinho. Ouviram-se alguns risos de desamor.

– Não respondeu à pergunta, Romão! Mas não tem mal. Eu não o forço a falar, como sabe. O exercício é puramente voluntário e cada indivíduo presente na sala é solicitado a intervir. Fazê-lo é uma escolha e você fez a sua. A sala deve respeitar e não reagir infantilmente, como se verificou. Creio que somos todos adultos. Resta pedir-lhe desculpa pelo sucedido. Melânia, vamos a si, minha querida?

A pressão comprimiu os traços de personalidade que pensei encerrar. Interrompi a Melânia, juntei as duas mãos indulgentemente, e congratulei o iRobot Roomba, exaltando o brio na execução do serviço, o profissionalismo e a exigência que oleiam os seus motores. Após engrenar o elogio, elaborei algo para o éter, reiterando que a ausência de uns traduz-se na oportunidade de outros com o parêntesis: pelo menos, é o que se assobia no mundo do futebol. No desporto, digamos. E nas relações amorosas, quando há dolo.

– Enquanto o Romão falava, revi os 12 passos na minha cabeça e em nenhum diz que devemos agradecer aos gadgets. E agora? Vou procurar aqui nos grupos de Facebook onde estou inserida. Pode ser que me esclareçam.

A Melânia, movida pela bisbilhotice, inquiriu a anfitriã:

– A Sandra já foi a alguma reunião dos utilizadores de redes sociais anónimos? Nas últimas duas, não a vi lá e inscreveu-se na mesma altura do que eu. Porém, numa recaída que tive anteontem, vi um instastory, a dar conta da sua presença no local.

Sandra meteu dois biscoitos de canela à boca. Esperámos até que ela acabasse de os mastigar. O desvanecimento das boas maneiras e da educação de excelência, vociferada por uns quantos tristes, é um mito.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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