Entre Porto e Brasil, Gabriela Curry lança livro sobre o que descobriu depois de abrir “a porta do mar”

Gabriela Curry, livro

Portugal sempre tratou a emigração por “tu”, não fosse até “saudade” uma palavra bem portuguesa. E se há alguns anos algumas famílias atravessaram o Atlântico em busca de melhores condições de vida, também o movimento contrário aconteceu e tem vindo a acontecer. Há um oceano que separa geograficamente Portugal e Brasil, mas os dois ‘países irmãos’ são “casa” para Gabriela Curry.

Desde adolescente, vive com o coração dividido entre a cidade do Porto e o país que a viu nascer, mas agora decidiu revelar em livro as descobertas que foi fazendo ao longo de 25 anos em que tem estado com ‘um pé lá e outro cá’.

Aos 15 anos, Gabriela Curry começava uma nova vida em Portugal ao lado da irmã e da mãe. Não conhecia nada sobre o país e não conhecia ninguém além de uma tia que se tinha mudado seis meses antes. “A minha mãe queria mudar, queria proporcionar outras experiências para si e queria que a gente viajasse, queria que a gente ampliasse a nossa visão de mundo”, conta.

Gabriela Curry, Porto
Foto: Gabriela Curry

Os primeiros tempos não foram fáceis, mas Gabriela Curry também rejeita a palavra “difíceis”. “Foi desafiador”, afirma, explicando que notou “muita diferença”. “Teve a adaptação ao frio, a um clima diferente… teve a adaptação ao modo de ser, à cultura, ao povo português”, continua, referindo que foi aprendendo com “o passar dos anos e com a interação com outras pessoas”.

“Na altura, há 25 anos, não havia perto da quantidade de brasileiros que existe hoje aqui, então, os nossos amigos eram todos portugueses. Nós viemos a fazer amigos brasileiros anos mais tarde. Portanto, eu acho que isso foi um ponto muito positivo, porque, como a gente só tinha amigos portugueses, isso facilitou muito a minha integração”, recorda.

“Eu ouvia a mesma música, eu contava as mesmas piadas, comia, experimentava tudo o que me davam para experimentar, o cafezinho com o pastel de nata, todos os tipos de bacalhau… então, a integração, no meu caso, foi muito facilitada porque todos os meus amigos eram portugueses, na época”, acrescenta Gabriela Curry, aconselhando que a melhor forma de integração para um imigrante é misturar-se com as comunidades do país.

“Hoje, quando eu olho para trás, eu vejo mais alegrias do que propriamente problemas de adaptação”, conclui.

Além disso, a viver no Porto, Gabriela Curry acabou por também abrir horizontes “para tudo de novo, para o desconhecido, para várias coisas que não sabia” e talvez por isso tenha mudado de ideias quanto à área que pretendia seguir profissionalmente. Inicialmente com ideias de ser médica, aos 26 anos, já depois de ter tido vários trabalhos, entrou no curso de Ciências da Comunicação, para ser jornalista.

Gabriela Curry, Porto
Foto: Gabriela Curry

A escrita era já uma paixão antiga de Gabriela Curry, que aos nove anos a usava como forma de expressão. A par da leitura, já que entrar numa biblioteca “era como se estivesse entrando num portal”. Nessa altura, falava com os avós, que moravam a mais de 1.000 quilómetros de distância, através de cartas.

“Eles compraram uma casa no interior da Bahia, ali perto de Salvador e eu mandei uma carta para eles com um desenho separando os quartos, a cozinha, dizendo onde é que os netos iam dormir, onde é que os pais iam dormir… e mandei essa carta para eles em que eu dizia muitas coisas, mas uma coisa que eu nunca me esqueço era, no fim da carta, quando eu estava já a me despedir: ‘vó e vô, pensem na condição da existência humana’”, lembra, entre risos.

“A minha área era comunicação e era jornalismo, então, o jornalismo veio coroar, ser a cereja no bolo de toda esta história”, diz ainda a autora, que trabalha atualmente na área da Publicidade e Comunicação.

Ao longo do tempo em que viveu em Portugal, Gabriela Curry nunca deixou de ir ao Brasil. Todos os anos, ia visitar a família e amigos de infância e, em 2011, chegou mesmo a morar um ano no Nordeste com a madrinha.

“Acontece uma coisa curiosa demais que todo o emigrante que me ouvir agora vai entender, que é: quando eu estou cá em Portugal, morro de saudades do Brasil e, quando eu estou no Brasil, eu morro de saudades de Portugal”, partilha.

Gabriela Curry, livro
Foto: Oséias Barbosa, Darlan Borges

No entanto, há cerca de 10 anos, conheceu a sua cara-metade, um “carioca de gema”, como carinhosamente descreve. Em 2020, os dois decidiram encurtar a distância e acabar com as constantes viagens de ida e volta e, por isso, Gabriela Curry regressou ao Brasil, vivendo até agora no Rio de Janeiro, sem esquecer o amor pela cidade do Porto.

Contudo, descobriu um novo desafio: “para além da saudade, é todo o processo de adaptação do zero. Porque, quando você sai do seu país e passa muitos anos fora e depois regressa, toda aquela realidade que você deixou lá quando você saiu já não existe mais”.

Os primeiros anos de readaptação foram “muito difíceis”, mas agora está “numa fase muito gostosa”. “Eu já me conheço mais e sei integrar-me. É meio como se você estivesse achando uma personalidade. Eu tinha uma Gaby brasileira e eu tinha uma Gaby portuguesa e agora eu tenho uma Gaby que é luso-brasileira, que é as duas coisas, de forma muito integrada, de forma muito própria também”, explica.

No livro “Depois que abri a porta do mar”, Gabriela Curry conta, através de dezenas de crónicas, todo este processo, todos os sentimentos e descobertas: “a maior parte dos textos conta justamente como eu passei a integrar duas identidades. Existem duas versões da mesma pessoa, uma que se comunica em português do Brasil e outra que se comunica em português de Portugal”.

Gabriela Curry, Porto
Foto: Gabriela Curry

“Nós somos separados pelo oceano Atlântico e essa porta, que é a porta do oceano Atlântico, é como se fosse a porta da minha casa. É do género: eu abro a porta do Atlântico, chego de volta a Portugal; abro a porta do Atlântico de novo, chego de volta ao Brasil. Ambos casa. Quando eu venho a Portugal, estou a chegar a casa, quando eu volto para o Brasil, eu estou a chegar a casa”, confessa.

“Hoje, eu vou e volto com uma naturalidade, como quem estivesse abrindo a porta de casa, para sair para ir até ao mercado”, descreve.

“E, depois que eu abri a porta do mar, tudo mudou na minha vida e digo-te que as pessoas e todos esses desbravadores que saem por aí a desbravar, a participar no desconhecido, a morar em outros locais, às vezes, a largar a família, amigos, os locais que conhecem, as ruas que conhecem, a padaria da esquina, a escola onde estudaram e essas pessoas que partem para o desconhecido… é preciso uma dose de coragem muito grande, mesmo cheios de medo, e de desprendimento também”, defende.

Gabriela Curry garante que “não é fácil” largar tudo aquilo que se conhece: “mas eu digo que, depois que você abre essa porta, depois que você desbrava, a recompensa, o pote de mel está lá”.

Gabriela Curry, livro
Foto: Gabriela Curry

Com este livro que reúne vários textos que foi escrevendo ao longo do tempo, o propósito maior é “diminuir” o oceano que separa os dois países e “derrubar barreiras e preconceitos” de forma a mostrar a outros migrantes que “não é uma jornada fácil, é cheia de desafios, mas é possível”.

“Todos temos muito para aprender uns com os outros. Quem vem do Brasil traz uma realidade, traz um contexto, traz uma bagagem, traz uma visão. Quem está aqui também tem outra bagagem, outro contexto, outra visão e a troca é sempre muito boa, é sempre muito válida. Temos muito mais daquilo que nos aproxima do que daquilo que nos separa”, destaca.

A ideia de voltar a viver em Portugal é uma vontade para a autora, mas ainda não há planos futuros concretos nesse sentido. A única certeza por agora é que já há um segundo livro a ser escrito e que Portugal irá receber um evento de lançamento oficial do “Depois que abri a porta do mar”, numa data e local ainda a confirmar.

O livro pode ser encomendado através do site da editora para todo o mundo ou adquirido nos eventos de lançamento.

Foto: Gabriela Curry

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