OPINIÃO: A encoberta perrice – “não mexer!”

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês, impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Neste episódio, por consequência da hipocinesia que me afecta desde nascença, optarei por não me pavonear com prosas da algibeira, suportadas por parágrafos demasiado longos. Conjuguei a probabilidade de me alertarem para o facto de que, caso tal acontecesse, pudesse sabotar e corromper o estilo/forma de escrita porque “deixaria de estar à mercê de uma das minhas imagens de marca”. A defesa possível cinge-se à negação do exercício de tal métier: não sendo um escritor, e estando a anos-luz de poder vir a sê-lo, tal preocupação jamais pode vergastar a carne, quanto mais a estrutura óssea. O presente bloco adensa-se, passemos para o próximo.

A privação no campo das ideias, aliada à carência de habilidade para escrevinhar textos noutros formatos – dentro ou fora do campo jornalístico, passando pela poesia e pela dramaturgia, ou simplesmente com paragens em lugares com menos caracteres – impele à reprodução de um discurso. A citação e a posterior transcrição integral são as únicas escapatórias para a alhada na qual me inseri. O dividendo de tolice multiplica-se descontroladamente, o divisor é filho único e o quociente é composto pelo povo porque este se lincha quotidianamente. Parece que este parágrafo quer fazer frente ao primeiro. Fujamos!

(Ah, faltou especificar algo. Esta é uma história baseada em acontecimentos reais. Para efeito de protecção de identidade das vítimas, os nomes das mesmas foram alterados. Examinando com maior profundidade, proponho também a troca do local da tragédia, bem como a data e outras referências que facilitem a identificação. Caso contrário, a ligação do diálogo vindouro ao pecado original – não é esse, é outro que seleccionei – seria uma “lapalissada” de todo o tamanho. Que role a fita!).

Num país distante do telespectador – com sorte, é o mesmíssimo lugar – é desenrolado um diálogo entre duas pessoas na casa dos 30 anos. O mês era dezembro, o ano perto ou longe do que transcorre, num edifício de particularidades que só ele conhece. (Até ao momento, limitei o raio do que grafo à mentira e à imprecisão de maneira a afastar os inconvenientes que se lançam à descoberta da história pura). O Renato – poeta e apreciador de caracóis – e a Débora – estudante de Cinema e adepta de carne barrosã -, detidos pela inesgotável fonte de mandriice que os caracterizava, conversam:

– Estás a ver aquele Cézanne? – perguntou Débora, com um subtil palmada no braço.

– Qual Cézanne? Só vejo um Henri Matisse dos mais paupérrimos… – responde Renato, afastando os óculos do rosto.

– Se olhares na direcção do meu indicador, reparas no Cézanne que repousa naquela parede, acima do móvel de mogno. Creio que se trata do “A Cesta das Maçãs” …

– Sim! Já vi! Qual é a razão de o quadro estar pendurado naquele local, precisamente sobre aquele tipo de madeira? Não conjuga. Ultimamente, contabilizando com este, só me saltam à retina atentados terroristas no admirável mundo da decoração de interiores – barafusta o poeta.

– Renato, é trágico. Realmente, é. Porém, ultrapassa-se facilmente. Quer dizer, não custa tanto digerir como a introdução de menus vegetarianos/vegans em estabelecimentos de ensino – condescendeu Débora, sem grande entusiasmo. – Alertei-te porque queria que reparasses noutra coisa.

– O que há de errado? Deixaste-me curioso! Vá lá, conta rápido! A minha pausa está a terminar. Preciso de rever esta quadra. Estou a escrever sobre o heliocentrismo, Nicolau Copérnico e o conflito com a Igreja Católica. Mas só tenho estas três bases. Preciso de termos que as consigam grudar.

– Repara naquele caixote do lixo que ladeia o mogno! A altura é normal, a largura e o comprimento estão dentro de todas as normas para objectos como aquele. Diria que está tudo em conformidade.

Expectante quanto ao rumo que a informação poderia tomar, Renato assentiu com a cabeça.

– À entrada, avisaram-me acerca da proibição de lhe tocar e não adiantaram a razão – desabafou a estudante de cinema.

– Talvez haja algo que me esteja a escapar. Não consegui entender. Se disseram isso, é, certamente, por ser uma peça valiosíssima e por terem medo que ela se danifique – opôs-se Renato.

– Enganas-te! Qual peça valiosíssima? Aquilo é um objecto que acomoda lixo, como tantos outros. Alguma vez os caixotes do lixo integraram exposições? Questionei o segurança acerca dessa possibilidade, quando confrontada com a recomendação, e a resposta foi negativa.

– Pronto! Não faz parte! E depois? Se te disseram para não apalpares indecorosa e abusivamente o caixote do lixo, respeitas tal pedido. É complicado perceber? Tens por hábito volver em lixo? Não conhecia esse teu fascínio… – ironizou o apreciador de caracóis.

– Acompanha o quadro geral, Renato. Não te foques em insignificâncias e pormenores ignóbeis. Os caixotes do lixo, bem como o seu conteúdo, jamais fizeram mossa no meu espírito. Fruto do acompanhamento médico que possuo, posso ser diagnosticada com germofobia, num futuro próximo. Contudo, há algo que estás a ignorar: se o corpo de segurança solicitou a distância do objecto, significa que talvez este esconda algo. Ou, pior ainda, que não o seja na sua concepção original. – especulou Débora, num tom esquivo.

– Amiga, se me permites, continuo na senda do dissídio e da incompreensão desse teu desvario. Qual é o problema? O meu intuito era espairecer, comer a minha sandes de frango na paz do Senhor e apreciar a parafernália que está exposta. É-me indiferente que possa ou não tocar no caixote do lixo.

– Amigo, estás tão lento de raciocínio hoje. Quando sairmos daqui, vou marcar-te uma consulta num neurologista. Mas isso é problema para depois. Espera, vou tentar fotografar ou gravar um vídeo do caixote do lixo.

– PORQUÊ? PORQUÊ? PORQUÊ? – alteia a voz Renato.

Naquele instante, aproximou-se deles um dos vigilantes e, através de uma reprimenda, obrigou-os a reduzir o volume vocal. O zelador aproveitou o momento para instar Débora a guardar o dispositivo. Os olhares dos outros convidados fustigaram-nos, escarnecendo os dois amigos com risos entre dentes.

– Não consegues ver onde reside o problema? – indagou a apaniguada de carne barrosã, visivelmente agastada. – Eu vou demonstrá-lo a ti com uma única frase para a qual aposto que não encontras objecções: se não pretendes que uma pessoa mexa em determinado objecto, omites tal aviso; caso contrário, abres o precedente do “fruto proibido” e o sarilho inunda-te o dia.

– Débora, de há uns tempos para cá, a quantidade de proteína que entrou no teu organismo desregrou-se por completo. As estadias por Montalegre e Ponte da Barca, de manière répétée, prejudicam-te, a olhos vistos. Refreia a agrura. Até parece que encontraste um nariz no interior de um pão.

– Ó Renato, deixa-te de parvoíces! O que raio Gogol ou o facto de fazer périplos por sítios onde se come boa chicha têm que ver com isto? Que motivo teriam os vigilantes para agirem desta maneira, sendo que se trata de um objecto perfeitamente comum e observável diariamente? Ninguém iria, de livre e espontânea vontade, remexer um caixote do lixo. A menos que alguém dissesse, precisamente, para não o fazer.

– Se estás a pensar servir de isco e distrair os responsáveis, enquanto eu constato a existência de algo de estranho dentro do caixote do lixo, desencanta-te. Não arredo pé daqui. Boa sorte, germofóbica! – atirou, provocadoramente, o poeta.

– Esta é uma boa altura para compreenderes um dos motivos que conduziu ao nosso divórcio. O amor vê-se nos detalhes, estúpido! – replicou, secamente, Débora.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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