POR OUTRAS PALAVRAS: Culpa

Por outras palavras, Culpa

Porque é que me sinto culpado quando digo que não?

A culpa é uma emoção curiosa. Pode surgir depois de fazermos algo que sabemos que não deveríamos ter feito, mas também pode aparecer quando, na realidade, não fizemos nada de errado. Dizer “não” é um bom exemplo disso.

Estabelecer um limite pode ser uma decisão perfeitamente adequada e, ainda assim, deixar-nos com a sensação de que fizemos alguma coisa errada. Podemos saber racionalmente que temos direito a recusar, mas continuar a sentir culpa. Afinal, se não fizemos mal a ninguém, de onde vem essa sensação?

A culpa está relacionada com a forma como avaliamos o nosso próprio comportamento. Surge, muitas vezes, quando sentimos que não correspondemos a uma regra, valor ou expectativa que consideramos importante. Nesse sentido, pode ter uma função importante: ajuda-nos a reconhecer quando ultrapassámos limites, quando prejudicámos alguém ou quando agimos de uma forma que não está de acordo com aquilo em que acreditamos. O problema é que nem todas as regras que seguimos foram escolhidas por nós.

Ao longo da vida, aprendemos ideias sobre aquilo que significa ser uma “boa pessoa”: ajudar os outros, estar disponível, não desiludir, ser simpático, evitar conflitos, colocar os outros em primeiro lugar. Estas aprendizagens fazem parte da nossa educação e da forma como construímos relações. Mas, quando são levadas ao extremo, podem fazer com que o simples ato de dizer “não” pareça uma falha.

É então que podemos confundir limite com egoísmo.

Mas dizer “não” não é, por si só, um comportamento egoísta. Um limite não é uma forma de punir ou rejeitar o outro, mas uma forma de definir aquilo que estamos, ou não estamos, disponíveis para fazer.

Existe ainda outra dificuldade, pois temos pouco controlo sobre a forma como os outros vão reagir aos nossos limites. Podemos dizer “não” de forma respeitosa e, ainda assim, alguém pode ficar desiludido. Pode não compreender. Pode insistir. Pode até considerar que deveríamos ter dito “sim”, mas isso não significa necessariamente que o nosso limite esteja errado.

Uma das aprendizagens mais difíceis neste processo é perceber que não somos responsáveis por evitar todas as emoções consideradas negativas das outras pessoas. Podemos preocuparmo-nos com aquilo que o outro sente sem assumir a obrigação de eliminar a sua desilusão, frustração ou desagrado. É também por isso que a culpa pode diminuir quando começamos a dizer “não” com mais frequência. Não necessariamente porque deixamos de nos importar com os outros, mas porque começamos a construir uma ideia diferente sobre o que significa cuidar das relações.

Talvez seja importante, por isso, não tentar eliminar imediatamente a culpa quando ela aparece. Em vez disso, podemos tentar compreendê-la:

  • “Porque é que estou a sentir-me culpado?”
  • “Fiz alguma coisa que considero realmente errada?”
  • “Ou estou apenas a contrariar uma expectativa que aprendi?”
  • “Estou a prejudicar alguém ou estou simplesmente a cuidar de um limite meu?”

Estas perguntas podem ajudar-nos a distinguir a culpa que nos orienta da culpa que nos prende. Porque dizer “não” pode continuar a ser desconfortável mesmo quando é a decisão certa. E talvez seja precisamente essa uma das ideias mais importantes: não precisamos de deixar de sentir culpa para começar a estabelecer limites. Podemos aprender a fazê-lo mesmo quando a culpa aparece. Com o tempo, o “não” pode deixar de ser entendido como uma rejeição, uma desilusão ou uma falha e pode simplesmente passar a ser uma resposta possível.

Imagem: DR/Jornal Referência

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