OPINIÃO: E uma “Supernanny” para a Programação Televisiva?

E não, este não é mais um artigo em que volto a questionar a liberdade no nosso país. Mas na realidade, a liberdade é, provavelmente, um dos valores fundamentais da Humanidade sobre o qual mais gosto de refletir e que está intrinsecamente ligado a toda e qualquer ação de um cidadão. E o que aconteceu na estreia de mais uma relíquia destrutiva da televisão portuguesa, de nome “Supernanny”, foi um atentado à liberdade individual, em particular, das crianças expostas.

Neste pequeno artigo, darei conta, não só da minha opinião quanto ao programa pelo direito à privacidade que viola e na liberdade que permite que programas como este emanem, mas também quanto à idiossincrasia com que se educam a maior parte das crianças em Portugal. Não quero que se confunda má educação com maus tratos e, por isso, acho que não se deve confundir as consequências negativas da liberdade (que existem) com algo parecido com a “suspensão da democracia” que a antiga Ferreira Leite sugeriu, também, num programa de televisão.

Programas, como este da “Supernanny”, não são compatíveis com a liberdade que se entrega ao povo para que possa exercer o seu livre arbítrio, primeiro porque atenta contra a liberdade dos cidadãos menores que aparecem no programa sem o seu consentimento, ainda que não o pudessem dar, e segundo porque usufrui da liberdade de expressão para entreter a assembleia televisiva que desde há imensos anos a esta parte continua a ser bombardeada com programas apetecíveis ao sensacionalismo e que acrescentam pouquíssimo à sua riqueza educacional ou cultural e quiçá a diminuam.

Numa lógica muito básica de rentabilidade da comunicação social, facilmente percebemos que os programas mais vistos são os programas cuja publicidade lateral (antes, depois ou durante) é a mais lucrativa para quem a vende. E os órgãos de comunicação social existem financeiramente pela fonte de receita de vendas de publicidade. É, na minha opinião, de se colocarem duas questões primárias.

Questão 1: Não teria a televisão o mesmo número de espectadores se se abolisse quaisquer programas abjetos como os reality shows?

Questão 2: Na liberdade de expressão, não ganham os órgãos de comunicação social particular responsabilidade de informar, mas também de formar a comunidade?

Porque não há impossíveis, entre as possíveis dúvidas que possam surgir, todos respondemos positivamente às questões. Sim, teriam os mesmo espectadores, como no tempo exclusivo de um canal de televisão – a RTP; e sim, quem influencia merece maior regulação e é aqui que entra a responsabilidade fundamental da Entidade Reguladora para a Comunicação Social – ERC. Entidade à qual já o Instituto de Apoio à Criança pediu suspensão do programa “Supernanny”.

Bem, mas não sejamos inocentes e percebamos porque raio um programa deste valor chega a ser transmitido. Porque não mudamos! Desde a realidade do Eça de Queirós e de como a descreve no livro “As Farpas”, em 1872, em que os portugueses flutuam na “mesma pobreza, (…), mesma decadência de espírito”, esta realidade sucedeu todas estas décadas até hoje pela falta de planeamento essencial ao nível da qualificação moral e cultural do povo e nisso têm particulares responsabilidades os políticos, os pais e os cidadãos conscientes.

Não pode ser possível que, em pleno século XXI, uma criança seja exposta para todo um país à beira mar plantado como Portugal, muito menos em circunstâncias de humilhação e de pouca clemência. Mesmo que o propósito seja de educar e de formar pais. Há fins que não justificam as formas.

Mas, como em tudo, vejo algo de jocoso neste programa, como em todos os reality shows. Prende-se essencialmente com a forma fantasiosa com que criam a personagem da “Supernanny”. Esta personagem é uma senhora de quarenta e poucos anos, elegante, quase sempre bem penteada e bem vestida, com pouquíssima pele exposta, inclusive na que é coberta com os aros escuros dos seus óculos que lhe dão um ar mais sério e de que se trata de facto de uma expertise em como educar crianças mimadas e mal comportadas. Esta “Supernanny” faz-me até lembrar das personagens que surgem em alguns fetichismos clássicos com secretárias, administrativas ou professoras. Encaixa como um fato de Super Herói – bem justinho!

Por fim, e porque quero muito ser pai, não apenas pelo exercício de educar, mas num desígnio de vida e de pensamento que é criar descendentes biológica e familiarmente diretos a quem eu seja capaz de delegar o que penso sobre a importância de Mudarmos o Mundo, sistematicamente, perpetuando o que penso, quero deixar algumas considerações sobre a atitude educativa do programa na sua essência.

Não me parece discutível a qualificação académica da ama, até porque há algumas boas práticas no programa, mas o programa em si – pela exposição que faz de crianças – é de um claro assédio moral infantil, vulgo bullying. E este último facto representa algo tão simples como insensibilidade e, portanto, incompetência profissional.

Em suma, não há dúvidas que Portugal precisa de uma “Supernanny”, principalmente para a programação televisiva, sobretudo com programas de entretenimento que acrescentem cultura. E nisto se revela como a Televisão Pública tem um papel tão importante e decisivo; basta fazerem o exercício de se lembrarem em que canal é que viram pela última vez um concurso de cultura geral ou um debate dos temas da nação em prime time – RTP.

E sim, seria mais feliz e descansado se a televisão pública e privada cumprisse com uma missão maior – literar o povo!

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