OPINIÃO: A morte saiu à rua

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

Um mundo diferente nos foi apresentado, embora as gentes sejam as mesmas. Hoje, ao que se consta, é mais fácil apanhar a morte na rua, ao virar de uma esquina. Ouve-se por aí dizer que a morte saiu à rua, enfeitada de vírus ou coisa que o valha. Quando olhamos para o seu perfil, o raio do vírus parece uma almôndega, rodeada de vários picos. Estamos a ser mortos por uma almôndega repleta de picos. Uma estrutura medonha, ainda bem que não a conseguimos ver.

Esta morte combate-se se nos mantivermos no nosso canto, com o distanciamento social que antes ambicionávamos com tanto fervor, tanta vontade, e que agora pode servir de desculpa para nos baldarmos a encontros com amigos porque estamos cheios de ociosidade para sair de casa. Fica bem agora dizer: «Não vou sair de casa, como é evidente. Senão tenho a DGS à perna. Vamos antes fazer assim: eu vou para o meu quintal, tu vais para a tua varanda e fazemos chamada. Que me dizes?».

Além disso, ainda nos vieram com a história das máscaras (para não falar do álcool usado e abusado, logo nós, povo português que nem aprecia assim tanto álcool, com certeza…). Andámos muito tempo numa dança constante do tira e mete; isto é, tira a máscara, porque parece que não faz assim tanto efeito, e mete a máscara, porque, afinal, ao que tudo indica, ajuda a proteger-nos uns dos outros.

Face a esta situação, a mundividência é preciosa em pormenores que nos possam saltar à vista. Antes também, porém há, agora, menos contacto e isso pode fazer com que não vejamos tanto quanto queríamos.

Um exemplo disso foi protagonizado por uma velhota. A velha saiu de casa e parece que emperrou nos movimentos porque não está acostumada a mudanças deste calibre. Por aqui fiquemos a vê-la, enquanto na porta também esperamos, toda ela está numa luta embirrante em colocar o raio da máscara pendurada na face, encaixada pelas orelhas. Cá para ela, que tem pensamentos amplos e audíveis, diz-nos com nervos à flor da pele, Raios partam nos novos maneirismos e trajes! Quem diria que andaríamos com esta coisa na cara, mais parecemos doutores e médicos pela ruas, dispostos no disfarce de operarmos quem se atravesse à nossa frente. Os sem abrigos, se por aqui andassem, espantar-se-iam e considerariam que estão malucos, que milagres destes, de andarem por aí médicos e doutores de um lado para o outro seria um verdadeiro sonho concretizado.

E continuava o sermão, a quem a quisesse ouvir, embora todos ficássemos embutidos nos nossos botões, já nos bastam as nossas despesas e próprios problemas e ela, Por amor de Deus, por amor de Deus, que me livre de quase nem respirar com esta coisa, nem sei de que avesso se mete, oh menina, poderia fazer o favor de me ajudar, ah, não pode, faço assim, e assado também, mas olhe que estou de boa saúde, ando sempre com o Deus protetor, ainda há pouco me cruzei com ele enquanto dobrava a esquina, e ele nem uma recusa me fez, que me desejou as boas tardes, e você não pode tocar-me, ai Jesus, ai que esta juventude vai de mal a pior, é ela e o mundo com o cronavíras, ou coroaronavíruz ou lá o que é!

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