Há uma eterna rivalidade entre escritores. Essencialmente entre aqueles que partilham da mesma idade, do mesmo estilo, das mesmas influências, do mesmo estatuto social, etc., etc., e depois há o desenlace de uma tácita batalha com previsões de guerra para a vida toda.
Uns logram e esquecem os que não lograram, os outros remoem. Do pé para a mão tornaram-se escritores, porque a noite os inspira a tal. Vivem numa constante ebriedade quotidiana que é viver (reprimidos no enorme cliché que é ser escritor) e fumam nos cafés, bebem vinho barato, dormem com mulheres e homens sem identidade… tudo é um tumulto de experiências rupestres pintado à mão na carne do “poema”.
Ora, estes poetas, escritores, etc., (que como eu vivem de uma publicidade digital, nos emaranhados e veredas das redes sociais), pecam pela incompreensão da “marginalidade”. A índole literária de outros tempos, propícia a uma margem de rebeldia extrema, tornou-se uma banalidade da qual todos podem beber, com mais ou menos afinco.
A droga com dinheiro dos papás ou as bebedeiras loucas são acontecimentos que se tornaram banalizados pela maioria (literária e não literária) – é um modus operandi da nova geração. E todos fizemos parte desta folha, de uma maneira ou de outra. A enormes compilações e antologias poéticas dão-nos o vasto alcance quanto à capacidade de citação de Mário Cesariny ou Al Berto – não se torna intelectual pela estante ou camadas de citações (e eu sei do que falo, que adoro a minha enorme estante e as minhas constantes citações, não obstante não me tornei num intelectual), nem se torna escritor pela imitação empírica.
A novidade está em aberto e ainda por descobrir. A literatura é ampla e mais ainda a criação. Há universos inteiros por criar e poemas por se viver. Contudo, o “social porreirismo” da amizade leva à destruição do progresso. Uma constante camaradagem que eleva o ego, simultaneamente corrói a autocrítica, especialmente em miúdos como nós, na entrada dos vinte. Os “amigos” não leem o que amigo poeta escreve e ainda assim partilham consistentemente num apoio cego que os conduz ao abismo.
Há mais vida por vir do que a que já veio, há mais novo que velho e há mais poesia que poetas – primeiro é preciso escrever, depois é-se poeta e escritor (e a carrada de predicados possíveis). Para se escrever como Cesariny é preciso ser-se Cesariny (e Cesariny só houve um).
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