Pitada de Pimenta
O sol desce, bendito amarelado que urge pelo forro colorido que pincela as manchas mais tenebrosas, propícias ao ameaçar das gentes que estão em terra na sobrevivência; ui, acuda que veem-se algumas nuvens, acumuladas pelo ar límpido de verão, mas não assim tão límpido tendo em conta a fumaça que se descobre ao redor do azulado azulejo que se mira daqui; os fogos espreitam-se pela terra tórrida, onde o incansável olhar só vê cores típicas de um incêndio a deflagrar sem piedade, não muito longe da vila plácida em que se vive, longe da azáfama, quase também ela perdida do caos pandémico.
A Mãe anda e desanda, parece uma barata, mas das que sabe o que faz. Depois de se arrumar a cozinha em hora já espremida que nem uma bisnaga acumulada de lides domésticas, felizmente que tem o auxílio, pois tem que haver um calcular do tempo, não vá a novela desenrolar-se sem o seu olhar atento em relação ao enredo e às personagens, vamos lá despachar, está o fogão um brinco, está o chão lavado, entendendo-se que é a última tarefa para se deixar a cozinha arrumada para o dia seguinte, só as pernas é que estão que nem se podem, pudera, vamos lá deitar-nos no sofá para acompanhar o serão, ah, mas antes que se me esqueça, o lixo, o raio do lixo, Oh filha, vem-me aqui ajudar, vamos despejar o lixo!
O discurso mantém, o arreliar é o de quem vem com a telha, juntamente com as angústias interiores, há que aceitar e igualmente compreender, Sempre nas tecnologias, raios partam na rapariga, espera-me só um segundo que vou ali ao corredor levar este saco, oh, boa noite, espere, filha, olha, vou só ali apanhar uma fresca enquanto falo com a Vizinha de Rua, e depois vamos despejar o lixo, já venho.
E neste tempo em que ambas conversam, a tagarelice do costume, deixemos o narrador abordar de um outro prisma o contar, não sejamos a bisbilhotice que se quer entregar aos ditos de corpo e alma para depois nos colocarmos em transcritos pessoais, que nada têm que ver connosco, já lhes basta a elas o tanto que há para colocar em dia do outro lado da vila. Oh, mas vejamos que, passados uns dez minutos, ou mais, o tempo avança e já não não consigo ter essa precisão para o relato, regressa ela afã, Vamos despejar o lixo?
A Filha, que se preparava há muito para este ir, abana os braços, esmurra para dentro da boca as palavras que eram apetecidas ao ouvido da Mãe e vai-se atrás.
Ao sair da porta de casa, com os sacos carregados, pretos, daqueles tão frágeis que uma unha espetada alcança a fragilidade de que é feito, estava a sua Vizinha de Rua, de nome suspeito, digo eu, porque não estou para ousar revelar a sua identidade assim feita descarada, portanto, convém-nos usar a pessoa, mas nunca a identidade, vamos lá ter noções; e estando ela descendo as escadas, conforme os pés dela, um deles numa escada, o outro no ar, esperando que os nossos lá fossem seguir o mesmo rumo, já que esperava que a acompanhássemos, na medida em que a sua casa era para os lados onde o caixote do lixo está em caminho. Aqui, vejamos, o narrador existe para nos relatar estas peripécias, essa minúcia que tem a sua graça porque só se vive uma vez com tal pormenor, tal dia, tal data, tais pessoas, tendo por consciência básica de quem assim vive em tais meios, que as janelas já se ocuparam, algumas, com parapeitos usados e abusados pelo estender dos braços vindos com o nariz curioso, abraçados pelos olhares tísicos de quem, ao longe, vê mais que um animal noturno, Haja tamanha vista, minha senhora, se quiser, passar-lhe-ei a minha miopia, oxalá fosse como os troçolhos.
Bom, e pelo caminho, às escuras – parece que nem aos candeeiros sabem acender a luz –, uns cinco minutos, pertíssimo, facilidades das vilas, têm tudo e estão sempre a reclamar, enfim, nunca estão contentes com nada, nem nestas pequeníssimas coisas, a Vizinha de Rua já abre a sua colcha, está ela a tecer que se farta de sua vida, escrutina partes que mais lhe agradem, embora as outras menos morais as revele com autenticidade de quem tem curso de sentimentalismo, que, segundo ela, é a sua vida completa e, do nada, está ela a falar para a senhora Mãe, mas também já se dirigindo à Filha pronunciando o seu nome e tudo, Eu cá odeio que andem por aí sempre a falar umas das outras, são gentes canalha, falsas, é por isso que eu não gosto de comentar nada, mas bom, como vês, sofri muito na minha vida, entendes também tu, as coisas são assim, a minha filha saiu de casa, voltou depois, tornou a sair, não a critico, fez muito por mim, esteve comigo durante todo este tempo, a ajudar-me, e o meu filho igual, que sempre que estou mal, doente ou assim, ele está constantemente a perguntar se estou bem, se não.
Enquanto isto, parava e andava, precisava de esclarecer raciocínios seus enquanto pousava os pés no chão, como se transmitisse que os tinha bem assentes na Terra, de provável amostra de que o que dizia era realmente válido de atenção e carregado de veracidade, ninguém a perturbe, que ela continua o discurso, E é por coisas destas que eu estou-me nas tintas para o que elas dizem, eu sou assim, bem queriam, mas eu estou bem, passei por muito sozinha. Torna a parar, agora, em frente aos caixotes, já se perde o fio condutor da ligação, felizmente pensa uma delas, infelizmente pensa a outra porventura, com pena, e depois, no meio daquela escuridão que o candeeiro de rua ao longe faz um lampejo tímido, ouve-se de todas as partes, Vá, boa noite, diz a Vizinha de Rua, e a outra, a Mãe, diz também, Boa noite também para ti, e a Filha, para que não se parecesse mal também repete com magro entusiasmo, Boa noite.
E cada uma vai à sua vida. Está o lixo despejado, está a novela em andamento, está cada vida para seu lado, onde o tempo não espera; o sol desceu até desaparecer, a lugubridade instalou-se, caminhando para o espetáculo estrelado, convidativo aos notívagos que ficam pelas varandas estatelados, ao sabor da brisa que durante o dia não brinda as gentes e por se ouvem vozes na escuridão a conversar.