De acordo com a Renascença, desde o início da semana, e até esta quinta-feira, o estudante e o grande génio português António Rolo Duarte já angariou 256 donativos na plataforma de crowdfunding, e já conta com 8.600€ – num total de 25 mil que pretende recolher em “cafés” até ao final do mês. 25 mil euros é um bocado excessivo. Sinto que com esse valor vou para Cambridge, mas venho dormir a casa.
Eu, como desconfio sempre de nomes que dão uns bons trocadilhos, fui tentar conhecer e perceber esta caricatura. Num momento especial e delicado que atravessamos e em que milhares de pessoas ficaram desempregadas, o Tó quer ir para Cambridge à custa dos contribuintes.
O Tó refere que a sua motivação de se lançar no crowdfunding foi devido ao governo português ter-lhe pregado uma partida. Disse que o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior havia adiado a atribuição de bolsas de doutoramento, coisa que foi logo desmentida. Contactada pelo Sapo24, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), responsável pela atribuição de financiamento à investigação científica em Portugal, confirma que António Rolo Duarte apresentou uma candidatura ao Concurso para Atribuição de Bolsas de Investigação para Doutoramento de 2020, mas que esta se junta a outras 3.797, num concurso que prevê a atribuição de apenas 1.350 bolsas. Então o Tó vai ter de esperar sem saber se será um dos atribuídos? Não é justo para quem é um bom rapaz e tem um plano. Aposto que os 3.796 alunos que concorreram à bolsa são todos tipos avessos, arrogantes e pouco cultos.
Diz ele: “Ando à procura de malta para me pagar uns cafés. Talvez você me possa ajudar?” Em que país vive o Tó em que uma bica custa um euro? Oitenta cêntimos para mim já é ostentação. O Tó é o tipo de gajo que não olha a meios. O que ele precisa é de uma xícara com noção a ver se desperta.
Diz ele novamente: “Preciso de angariar 25 mil euros para viabilizar o meu doutoramento na Universidade de Cambridge. E tenho apenas 25 dias para obter o dinheiro, pois tenho que pagar as propinas até ao final de agosto.” Eu tenho cinco dias para pagar a renda, a luz, a água, e a Meo, ó Tó. Senão cortam-mas.
Mas já falei com eles e perguntei-lhes se podia pagar para o mês que vem que tinha de ajudar um amigo a ir para Cambridge. Não quero é que te falte nada.
“Se toda a malta do meu bairro contribuísse com 1 euro, o problema ficava resolvido. Mas nem toda a gente pode contribuir nesta altura. Por isso, preciso da generosidade de malta de fora do bairro.” Qual bairro, Rolo? Se for na Musgueira ou na Cova da Moura sou gajo de ir ter contigo pessoalmente entregar-te mil euros já em dólares.
Vamos ao mais absurdo nisto tudo: na sua página de crowdfunding, o Tó parece a árvore das patacas. Tem prémios para quem o ajudar. A quem contribuir com um euro esta estrela hollywoodesca envia um email privado. Imaginem a alegria das famílias em lay-off. Se por acaso o cidadão optar por dez euros ou mais receberá uma mensagem em vídeo deste inteligentíssimo quadrúpede. Se o cidadão for mais além e desembolsar vinte euros ou mais receberá em sua casa um postal manuscrito do Tó, que poderá convertê-lo em pontos na BP. Se o cidadão possuir a mesma noção do que o Rolo e doar cem euros receberá a cópia autografada da sua tese e fica com o epíteto de parvo. Aos duzentos e cinquenta euros o Rolo oferece uma tarde de aconselhamento académico para os seus filhos, em alternativa, um cocktail party sem álcool, que o Tó só bebe café. Por fim, se o cidadão doar mil e quinhentos euros, para além de ser só estúpido, será também convidado para um Cambridge May Ball, uma das dez festas mais exclusivas do mundo de acordo com a Vanity Fair. E quem não gosta de uma festa onde estão todos os totós de Cambridge a discutir Tales de Mileto? Ouvi dizer que elas passam-se.
Diz ele, depois de tudo isto: “Consegui convencê-lo? Estou a rezar para que sim. É que preciso mesmo de uma mãozinha.” Eu é que tenho sempre as minhas dúvidas quando alguém mete as rezas ao serviço do dinheiro, senão até me convencia.
Nótula em jeito de recomendação:
Este livro: Dobra, Adília Lopes