OPINIÃO: Ninguém espera pela Empregada de Limpeza

Ana Patrícia, 18 anos, Estudante

– Ó Dona Paula, deixe o elevador descer porque a criança está à espera!

E por Ela, ninguém espera? A vida Dela não tem agenda nem horários, limpa e conta o tempo através do número de escadas que varre e enxagua, é decerto aquilo que pensam os moradores dos diversos prédios onde faz a limpeza. Há uma falta de empatia desmedida para com quem lhes lava o chão e esfrega o presente do cão no tapete da entrada. Mas Ela tem tempo para passar mais uma vez o pano e a vassoura, afinal ninguém A espera em casa.

– Olhe, não me podia levar o lixo?

– Vou só deixar as malas e já liberto o elevador!

– Posso só passar?

É o que ouve em poucos minutos de trabalho, há um entra e sai que a rondam e Ela permanece ali, a varrer a poeira que os outros levantam na azáfama da vida que trazem agarrada à sola dos sapatos, mancha habitual no chão. Gostava de perceber o que vai na cabeça de alguém para pedir à senhora que limpa o prédio que também lhe leve o lixo: “Ah se é empregada para uma coisa deve ser para outra!” É provável que seja o que a superioridade, que acham que possuem, os faz pensar. Acompanha este pedido com indicações: “É mesmo ao fundo da rua, é pertinho, não custa nada.” Engraçado o que Lhe diz. No fim de subir e descer 5 lanços de escada na correria assoberbada, de facto não Lhe custa nada pegar no lixo da mulher vestida de pijama, que provavelmente acabou de acordar, e tem o desplante de dizer que é só um favorzinho! A vontade é de olhar seriamente e rezar para que a dita cuja se aperceba do cenário insólito que acabou de cobrar e da descrição incrédula que completou o discurso egoísta, mas é em vão, permanece à espera do seu lixo no caixote do fundo da rua. Vêm as famílias cheias de malas e cansadas das férias, ansiosas por metê-las e por se meterem no elevador e despejarem os dias que viveram à entrada de casa. A urgência de descansar comanda-os a pedirem o favor de lhes servir o lugar, mesmo vendo as lágrimas de suor que Lhe escorrem pela face enrugada de trabalho. Ainda Lhe falta acabar de limpar o espelho e os botões para que possa rapidamente despachar esse serviço e passar para o próximo. Enquanto pensa nisso cede a passagem e são cinco minutos em que o trabalho para. Não há problema, ninguém A espera em casa.

A senhora do rés-do-chão decide sair precisamente na hora em que Ela vai passar o chão, lembrou-se que se havia esquecido de comprar o sumo que tinha prometido ao filho, o Rúben, que se senta na fila de trás da sala de aula e deixa beatas de cigarros na floreira do prédio. O senhor do 2º andar deixou o gato urinar no tapete da entrada a seu bel-prazer, e chamam-Na porque é inconcebível ter que lidar diariamente com o cheiro das necessidades do pobre felino. Porque tem Ela de tratar do descuido e inconsciência alheias? Tem que varrer com mais força porque o Farrusco, da família do 3º andar, anda “a largar pelo” como dizem os filhos, e se restar, nem que seja um único pelinho, depois de se ter ido embora, é caso para não lhe pagar. Não há problema, a casa não espera nada Dela.

Acarta com Ela baldes de água, vassouras, detergentes, uma infinidade de produtos de limpeza que a fazem chegar suja e desfeita a casa; Mas se porventura aparecer alguém é favor parar tudo, o trabalho e o pensamento que se dispersa no desassossego de discutir a vida e arranjar solução para as várias contas que exigem pagamento lá por casa.

Cumprimenta então quem passa, quando levanta a cabeça e se transfere de novo para a realidade que a desenha naquele modesto condomínio. Conta para consigo as alternativas que Lhe restam e não há nenhuma de ferro, digna de fazer frente a todas as outras de palha.

É assim que a resignação dá conta de Si, e já só pensa que o Raul chega a casa do futebol, a Joana da escola e tem que lhes fazer o jantar, é para aí que o seu pensamento se vira agora, para a confeção da próxima refeição, sabe que vai aquecer a sopa e o resto ainda é uma incógnita. Tem de se despachar, só pagam as 3 horas e já Lhe queimaram 15 minutos com queixumes e tentativas de coscuvilhice que descarta numa questão de minutos. Tem de correr, pegar na esfregona e no pano com força, e vão escadas, pátios e vidros. Prepara-se para sair e um morador diz-Lhe: “ – Olhe, da última vez que cá veio o vidro não ficou muito limpo.” Que culpa tem Ela que, depois de o limpar com afinco, uma criança tenha achado por bem marcar os contornos da sua pequena mão nele?

Aceita as críticas injustas e vai, com a coluna em direção ao chão, pelo desânimo e pelo peso dos baldes, para casa, com pressa, porque há quem A espere.

Baseado na distopia moderna.

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