OPINIÃO: Na memória, era agosto

Romão Rodrigues, 19 anos, Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Na memória, era agosto. As vielas encontravam-se obstruídas pela diversidade de dicotomias impalpáveis. Os suspiros exteriorizavam-se e combatiam, em frequência, mãos colocadas na têmpora. O olhar, desassossegado, queria ver além de cabeças calvas e ouvir, adentrar pela barafunda de ruídos impercetíveis. A agonia, provocada pelo movimento da passada mental, germinou ali – a complacência do turbilhão pela inércia.

Ao longe, perto do término da calçada, um papel amarrotado. A marcha militarizada avançou perante ele: calcou, recalcou e espezinhou o pedaço reluzente. Na ânsia de alguma coisa – o quê? – ninguém o recolheu. O fenómeno absorveu uma quantidade incontável olhares, ainda que de soslaio. Entre o céu e solo, a crença num dissidente da robotização começava a rarefazer-se.

Até que, impelido pelo vozeirão mesclado com catarro, uma alma declama calmamente o que lá estava escrito. O bulício deu lugar à unidade na acalmia. E eu, de papel e caneta em punho, ordeno a mão, impingindo-a ao registo:

Tudo e nada representam
Uma dicotomia frenética em acalmia
Um par que rejeita com admiração o ímpar
Um conjunto redutor de uma individualidade
A transposição da linha da marginalidade
Dois pés que pisam a terra molhada e densa
Duas mãos que se entrelaçam na libido
Um coração frágil e despido
Léguas vãs de trilhos sinuosos
Almas vivas que gritam por gestos ditosos

A caminhada para o nada é longínqua
Faz-se com uma vara bifurcada em punho
Água – fonte de vida – e pão

Percorrem-se quilómetros na Terra, milhas em Marte
Ouve-se o chilrear das cotovias doentes
As árvores com sobretudo e bengala, reticentes
Pessoa e os seus heterónimos numa corrida contra o epicurismo

A pena, titubeante, vence a gravidade
A História resume-se à finita infinidade
E a Arte é a memória viva do sadismo

A caminhada para o tudo é célere
O comboio move-se ao ritmo da dilaceração primata
Os valores morais extraem-se de uma piñata
A religião esconjura e dobra o ceticismo em pequenos pedaços
Observa-se a frieza através do riso de um palhaço
O álcool embebeda as palavras sábias

E vocifera-se defronte da pátria impoluta de velhos costumes

Esfuma-se a maior crendice
Da algibeira sai, de rompante, a cusquice.
Valha-nos o pensamento.

Agosto já lá vai! Esse longínquo agosto!

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