OPINIÃO: Sonhei que existiam eleições

Romão Rodrigues, 19 anos, Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

(O advérbio está em falta. Sou adepto de iniciar qualquer rascunho com um bom advérbio e, por isso, contestatário de qualquer outra forma de prólogo. Diria, até, reacionário. A questão estética assume a sua preponderância na chamada lista de supermercado. Quem o diz, é tido como uma raça superior. A supremacia gramatical veio para ficar e ainda bem! Sou um gramatiótico – neologismo previsível e mal-empregue – e extremo a gramática, radicalizando-a sempre que posso. Por ruas e vielas, gritam “gramatista”!)

(A frase continua e é finalmente lançada às feras, sem a saudação). Assola-me a consciência de o ser humano ser vítima de uma minoração reles dos prazeres por parte das circunstâncias. Até à data, apenas experimentei dois: acompanhar o fervilhar das campanhas eleitorais, sejam elas presidenciais, autárquicas ou legislativas, e ler textos bem fundamentados e politicamente visigodos.

Em 2017, no Público, uma historiadora consagrada abriu horizontes e, de caneta em punho, foi percursora, ainda que com um tipo de escrita rebuscado e sinuoso e analogias somente destinadas a intelectuais de direita. A partir desse momento, sempre que a pertinência brada, retomo a crónica e tento enquadrá-la no panorama atual. De facto, foi escrito algo para mais tarde recordar…

Atualmente – quando se mencionam temas de interesse, tudo flui com assaz naturalidade – como não precipitam textos de calibre idêntico, ocupam-me as eleições presidenciais em Portugal (janeiro de 2021) e nos Estados Unidos da América (novembro de 2020).

Sob a presença atenta de Cristóvão Colombo – os Descobrimentos, o cume glorioso da Pátria – o objetivo desagua no facto de acalmar a carroçaria puxada, naturalmente, por gado bovino e fazer da América novamente uma potência. O muro na fronteira e o “shutdown”, a brilhante ideia de injeção de lixívia no combate ao vírus epidémico, o “impeachment”, o romper do acordo climático, a estratégia gizada na demanda do petróleo (Pentágono boquiaberto, parece que os vislumbro) e as trocas de carícias com as mais altas magistraturas russas e norte-coreanas correspondem à evidente distopia na qual o “país perfeito” está embrenhado. Perdoo o leitor por achar que, a princípio, o sujeito (a direção censurou o nome e a sua curiosidade) se tratasse de um lunático numa caixa de supermercados, porque, em tempos, também partilhei da mesma opinião. Mas não o é. Até porque esses, por norma, não costumam constar da lista da nomeação para o Prémio Nobel da Paz. O outro lado da barricada, definitivamente, é o menos mau. Assim como a antecessora o era. Está em curso um protótipo de uma nova democratização da sociedade americana. A sucessão era positiva, qualquer que fosse. O mundo aguarda ansiosamente que a balela das montagens fotográficas e as partidas de má índole não custe a eleição. Subsiste uma certeza apenas: America is not that big anymore

Em Portugal, a situação é distinta. Da terra fértil em candidatos, desta vez, não se extraiu madeira – cavaco, como a minha avó denomina – e bem. A respiração do solo foi tida em conta, num ato não só puro como isolado de lucidez, característica desfasada e ausente durante qualquer mandato. Na corrida pelo cargo de enfeite, posicionam-se três ciclistas bem distintos: a candidata feminina pedalou e pedala na demanda do cálice sagrado contra a corrupção, alegadamente; um dos candidatos masculinos (urge uma reunião com a direção deste jornal) exercita em direção à normalidade e permuta recíproca de afetos com a população, poder executivo incluído (salvé Autoeuropa), e contínua sessão de mergulhos por altura das férias de verão e ano novo; o outro, é conhecido por vencer em inúmeras edições da Volta à Constituição, por ser sempre refém da Opus Dei e por defender a castração química e física de tudo e mais alguma coisa. O resto do cenário serve, precisamente, como adorno sobre o adorno que se pretende.

Incluir este texto na lista de prazeres estupidez plena. Devo dizer que sou também paladino de ultimar qualquer texto com um advérbio. Cada pessoa com as suas bizarrias, não é verdade?

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