OPINIÃO: O monóculo

Romão Rodrigues, 19 anos, Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

O esconderijo. O buraco pela frincha de uma porta ou janela quase cerrada. A diminuta superfície gosta sempre de respirar, mesmo que a de dimensão largamente superior seja soberana.

O cenário clarifica e indica um caminho: tempo invernoso e escuro, chuva metódica e intensa, a combustão da madeira encarregue de conferir às paredes e à própria atmosfera a temperatura que resvalava no máximo conforto e a televisão como fundo audível e visível e, simultaneamente, impercetível – metáfora perfeita para o silêncio dos que muito palram.

Sentado na poltrona, um ancião: hirto, de semblante imperturbável e com as mãos sobre as respetivas pernas; a seu lado, um monóculo extremamente velado, sem mancha ou lasca visível na sua armadura. Registou-se apenas um único movimento: morosamente, ergue-se, detém-se sobre um livro encafuado em pó e bafio e regressa à base; o monóculo percorre o trajeto até à fronte do olho e inicia-se um novo ciclo de atividade:

Por um fio te contemplo
À sombra de uma azinheira
O tempo cessa, acende-se a luz
E as nossas almas apagam a fogueira
De um tempo ausente
Na cálida mensagem segredada pelo presente

Escutam-se vozes e gritos mudos
A surdez flutua no pântano do descobrimento
Os restos mortais depositados nos sete mares
A cólera estendida na extensa praia
E nós quedados, sem eira nem beira
Enrolados na magia do firmamento

Desprendam-se as raízes das árvores
Colham-se os frutos putrefactos
Plantam-se as sementes da saudade
Emergem ramificações, floresce o mundo
Paira o pólen da flama ardente
E o relógio transfigura-se num segundo.

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