OPINIÃO: A melhor crónica do mundo

Quando pequeno a minha pretensão era mudar o mundo, depois metia-se tanta coisa de permeio muito mais interessante que mudar o mundo.

Hoje é diferente, não tenho pretensão como acredito que o mundo não necessita de mudança. Deixar o mundo como mundo parece-me mais difícil e sensato que tentando mudá-lo. Da mesma maneira, não falar é mais prudente que dizer alguma coisa.

Oiço muitas vezes lamentando: «que mal vai este mundo!». Certamente não o universo que vai de mal a pior ou que o planeta é do piorio. A expressão «que mal vai este mundo!» depende de quem a profere normalmente uma de duas pessoas: as que julgam que o mundo deve ser igual e as que acham que o mundo deve ser diferente. Eu apenas quero que o mundo escolha o melhor para ele, estando aqui há mais tempo merece pelo menos essa oportunidade.

Utilizar a palavra «mundo» é hiperbolizar, generalizar, não dizer nada quando se diz alguma coisa, mas também é dizer mais do que é a realidade, acreditar, por exemplo, que namorando três mulheres é namorando todo o mundo. O problema de «mundo» é ser demasiado vago.

O que o mundo fez de nós desde que o mundo é mundo, quer dizer o quê mesmo? «Hoje à noite vou beijar todo o mundo», fará sentido almejar o beijo terno de todos os planetas e astros? Não. «És a mulher mais bela do mundo», diz mais sobre o interlocutor do que a própria amada. Primeiro declara e sugere que ela, sua amada, fisicamente está acima de qualquer ideal de mulher – imaginais? –, segundo é um enganador, farsante, charlatão, possivelmente o maior enganador, farsante, charlatão do mundo.

Há um conto tradicional português chamado Manuel Vaz que começa assim: «O Manuel Vaz era filho de uma rica lavradeira […] A pobre mãe sabia que, se ele ficasse só no mundo, seria um desgraçado». Qual «mundo» que a pobre mãe se refere? Com certeza não o mesmo de Einstein. Nem o de Marx ou de Jesus Cristo. Quando o filósofo Gaultier escreve «o mundo é um espetáculo para ver e não um problema para resolver» a ideia de mundo é diferente da do político Mazzini quando diz que «o mundo não é um espetáculo, mas um campo de batalha». Talvez a pobre mãe suponha que Manuel Vaz precise do casamento para não se sentir só no mundo, isto é, interiormente, na alma, em casa, pois terá alguém que de companhia estrangulará o peso da solidão, o que revela uma exacerbada falta de conhecimento seja em matrimónios, seja no mundo propriamente dito – e essa é outra expressão incomodativa, «propriamente dito».

Enfim, o problema de facto nunca é o mundo, porém o mundo é e será sempre o maior problema de linguagem, do mundo, propriamente dito.


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: Ficção Completa, Voltaire

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