EM TELA CONVIDA: “I, Daniel Blake”

Imagem: Ana Regina Ramos e Joana Aleixo/Canva

“I, Daniel Blake” é uma das obras primas que melhor reflete o valor e a importância da sétima arte em questões sociais e na política. Que melhor transcende o ecrã e comove o espetador, dificilmente o deixando indiferente à realidade de inúmeros que são esquecidos e abafados pela burocracia e a indiferença da Segurança Social. Um drama britânico extremamente humanizado e atual, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes e do Prémio do Público em São Sebastião e Locarno.

Interliga, o filme, duas realidades, duas pessoas com tudo e nada em comum, ligadas pelo desemprego e pela sensação de abandono por parte do estado; Daniel Blake, de 59 anos, e Katie, mãe solteira com duas crianças – Daisy e Dylan – ao seu encargo, veem-se com as portas e as oportunidades todas vedadas, encontrando um apoio mútuo um no outro. Aborda, o filme, um dos maiores problemas da era da globalização, muito associada ao digital, que é o “ser-se deixado à margem”, esquecido pela evolução tecnológica – a qual nem todos, como nos é demonstrado, conseguem acompanhar –, pela exclusão e falta de interesse a que este paradigma pode conduzir, deixando-nos muitas vezes sem saída.

Daniel Blake trabalhou a sua vida toda como marceneiro, deixando-o, um acidente de trabalho, incapacitado e a carecer de apoio para sobreviver, enfrentando agora uma nova realidade, marcada friamente pelas dificuldades na comunicação, perdida nas horas de espera dos telefonemas, nos formulários online, inacessíveis a alguém que desconhece o mundo digital. Katie, por sua vez, protagoniza-nos momentos emocionantes que retratam a luta de uma mãe para dignificar a vida dos filhos, num paradigma precário retratado pela excessiva qualificação profissional exigida que nem todas as pessoas conseguem atingir.

Refletem-nos, estas duas personagens, uma era marcada pela precariedade, pela Segurança Social britânica – referenciada como um modelo a seguir em inúmeros países – amplamente desigual que põe em causa as próprias conceções de direitos e dignidade humana. O filme encontra-se disponível nas plataformas FilmIn e HBO.

Vejam o trailer aqui:

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