Crónicas Avulso
As crónicas semanais têm um valor diferente do literário. Pelo menos as minhas. Escrevo-as não a pensar que ficarão para a posterioridade, mas meramente como um exercício semanal. Um exercício onde me testo. Escrevo-as em dez minutos e sem rascunhos. O que daqui sai, normalmente, é uma pequena alusão à minha semana. Não é muito pensado, nem trabalhado, e o que surge à superfície tende a ser uma brecha de uma memória que se destacou. Como uma pequena luz entre as frestas da janela quando o sol nasce – é uma primeira luz. Não é necessariamente a que ilumine mais, mas ilumina.
Esta semana decidi pôr-me à prova noutros campos e voltar a escrever prosa. Prosa literária, isto é, um conto. Para meu espanto acabei por escrever três. E para maior espanto ainda, três bons contos. Um deles posso afirmar que foi uma das melhores coisas que já escrevi. Como é que eu sei isto? Porque vibrei ao dactilografá-lo, senti adrenalina de o escrever. Experimentei em cada poro do meu corpo aquele cenário, aquelas personagens, aqueles sons… e todo o desenredo. Não havia um pingo de treta autobiográfica.
A dificuldade para quem escreve e quer escrever é precisamente ultrapassar essa barreira autobiográfica. Para quem lê pode tornar-se chato. Pensemos da seguinte maneira: será que o leitor quer mesmo ler sobre as noites loucas de copos, ou dos encontros casuais, ou do quão sofredor o poeta é? Há mil e uma histórias assim, e poemas… acaba por cair num aborrecimento banal. A ultrapassagem desse passo é precisamente escrever sobre aquilo que está para além de nós, da nossa vivência banal, através de uma narrativa que engaje o leitor. E, pela primeira vez, senti que o estava a fazer, a tocar nos sentimentos mais primitivos sem grandes elaborações.
Depois de tudo isto decidi transportar a minha impressora desde Coimbra até Viana do Castelo, porque ocupava muito espaço. Trouxe-a embrulhada em toalhas e roupa suja, para se proteger de eventuais choques. Depois corri o centro comercial com a mala de viagem que transportava tudo sem que ninguém fizesse a mais pequena ideia. Isto tudo para comprar tinteiros, fazer um reset da máquina e imprimir os meus contos. Assim posso corrigi-los à mão.
As minhas semanas tendem a ser muito distintas, mas no fundo são sempre a mesma coisa. O engraçado é que me parece sempre que não aconteceu nada que mereça ser relatado na crónica semanal, mas quando aqui chego… quando estou perante o teclado e sem nada em mente… aí aparece a tal brecha de luz com algo irrelevante mas que se costura bem na pequena folha de papel. Agora foram três contos e uma impressora.