Para podermos encontrar uma solução, penso que, em primeiro lugar, devemos fazer um esforço para tentarmos perceber os pontos de vista de todos os participantes. Na minha opinião, há 3 participantes: a Ucrânia, a Rússia e, simplifiquemos com uma generalização, o “mundo ocidental”. E a pergunta é: o que é que cada um destes lados quer? Tentarei explicar o que penso sobre a Ucrânia e a Rússia.
Começando pela Ucrânia, a Ucrânia quer juntar-se ao mundo ocidental, entrando na UE, na NATO, etc. Ou melhor, isto é o que Zelenskyy, o presidente da Ucrânia diz, pois não há unanimidade dentro da própria Ucrânia. Este é um facto que não ajuda ao conflito mas é como as coisas são.
Temos depois a Rússia. Apesar da reputação dos políticos no poder da Rússia não abonar muito a seu favor, devemos fazer o esforço de tentar perceber qual é o problema do ponto de vista deles. E qual é então o problema? Comecemos por olhar para o mapa da NATO:

Faça-se agora a seguinte questão: e se pintarmos aquele território grandalhão que diz “Ucrânia”, que está logo ali ao lado e que é o segundo maior da Europa logo a seguir à própria Rússia, com o mesmo tom de cor da NATO?
Para nós, a guerra fria já acabou há muito tempo, estamos no séc. XXI. O problema é que o poder político russo vive no século passado, com uma influência soviética enorme e, para esses políticos, a Ucrânia juntar-se ali ao grupinho do ocidente, é algo que é visto como uma ameaça existencial.
Neste momento, creio que é então pertinente fazer-se as seguintes perguntas: então mas a Ucrânia não é um estado soberano?!? Eles não podem fazer o que querem?!?
Antes de tentar responder às perguntas em cima, irei recordar um acontecimento de 1962: a Crise dos Mísseis de Cuba. O que se passou em outubro de 1962 foi que os norte americanos (ou o ocidente, ou “nós”, se preferirmos), instalaram mísseis na Itália e na Turquia. A União Soviética, em retaliação, instalou mísseis em Cuba. Para os americanos, ter aqueles mísseis ali tão perto e apontados ao seu território era algo inaceitável. “Inaceitável” é uma palavra-chave aqui e farei novamente uso dela dentro de momentos.
Ora, perante esta ameaça à sua existência, para o poder político americano – liderado pelo presidente John Kennedy – a solução era óbvia: ou os cubanos retirariam os mísseis, ou que se lixasse o direito internacional, Cuba iria ser destruída. Entretanto, os Estados Unidos e a União Soviética acabariam por chegar a um acordo e o problema acabou resolvido de forma pacífica.
Voltando agora ao conflito entre a Ucrânia e a Rússia, se algo é inaceitável para nós, porque é que exigimos aos outros que o mesmo seja aceitável para eles?
Penso que agora estamos um bocado em melhores condições de entender a posição da Rússia, mas isto significa então que eles agora mandam na Ucrânia? Então e a soberania da Ucrânia?!?
Se o mundo fosse a preto e branco, de facto, não haveria uma solução: os interesses de cada lado estão em conflito e só seria possível ou preto, ou branco. Mas o mundo não é a preto e branco, o mundo é a cores, e eu penso que a solução para este conflito passa por se chegar a um compromisso entre todas as partes, nas quais cada um perde um bocadinho, mas ficamos todos a ganhar no final.
E que tipo de compromisso?
Eu penso que a solução passará pela Ucrânia não se juntar à NATO. E se pensarmos um bocado, será que precisamos mesmo da Ucrânia na NATO? Sendo a Ucrânia atacada e não pertencendo à NATO, isso impede-nos de ajudar a Ucrânia? Será que vale mesmo a pena criar-se toda esta tensão? Na minha opinião, eu penso que este é um ponto onde podemos ceder e a Ucrânia e o mundo ocidental podem (e devem) pedir outras contrapartidas em retorno. A Ucrânia concorda em não se juntar à NATO durante as próximas décadas e, em contrapartida, obtém outro tipo de acordos e benefícios que sejam vantajosos para o seu povo. Podemos imaginar algo como: “tudo bem, eu não me junto à NATO, mas então tens que me dar algo em troca”.
Eu penso que não existe outra alternativa, até porque um conflito armado acaba por não resolver nada e só trará problemas: para a Rússia, uma guerra com a Ucrânia será extremamente dispendiosa e atirará a própria Rússia para a miséria. Para a Ucrânia, será a destruição. Então e o que sobra para o mundo ocidental? Nós somos o irmão mais velho, o grandalhão da escola, será que podemos perder?
Nós vivemos num mundo em que armas nucleares existem (sim, eu sei, parece que nos esquecemos um bocado disto) e, sem olhar para outros países – apenas para a Rússia -, estamos a falar de um número de armas nucleares que é composto por 4 dígitos. Será que vale a pena pensarmos o mundo a preto e branco, ignorando que o mundo é a cores e pondo em risco toda a sua beleza, tal como ela é cantada por Louis Armstrong?
Eu creio que não e penso que é obrigação de todos nós – mundo ocidental, ucranianos e russos – exigir aos nossos líderes uma solução exclusivamente pacífica e que nos permita viver em comunidade.