OPINIÃO: O Armindo é um hidrófobo, mas só com o gelo dos outros

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Nunca pensei chegar ao terceiro capítulo desta coluna. Ter uma já é magnífico porque faz muito jeito dispor tanto de ligação entre membros como de equilíbrio corporal, ter duas é uma bênção a mando de Cristo, seja por intermédio ou não de um dos seus capangas. Cristo tem capangas, sabiam? Mateus é um deles, assim como Tiago e Isaías. Se calhar não integram todos a mesma comitiva, mas não deixam de ser subordinados do Maior. Não há nada mais lastimoso e soturno do que não saber elencar as almas que conviveram com o Senhor, mas a vida é mesmo assim.

Pensando melhor… não, continua a não existir nada pior. Porém, sobejam acontecimentos que nos deixam quase tão desconfortáveis e com a vontade de existir a flutuar num lamaçal.

O mês de julho é ótimo para se fazer piqueniques. O vosso mal é pensar além. Engrenaram mal a sexta velocidade no tímido juízo que vos caracteriza: toalhinhas aos quadrados e representadas pela totalidade das cores da paleta, crianças a fazer um chinfrim dos diabos e a rebolarem na terra, homens a colecionar e agrupar lado a lado garrafas de cerveja enquanto debatem sobre matérias tipicamente portuguesas (futebol, política autárquica e divórcios na urbe), mulheres a dançar zumba e a levantar poeira a la moda de Ivete Sangalo e jovens a publicar stories para os amigos chegados no Instagram. Respirem fundo e libertem o desassossego. Ótimo para se fazer piqueniques, mas a solo. Sem mixórdia humana, sem músicas dos Calema e sem ser domingo. Com fritos, com o Hino Nacional a abrir a faina e com anedotas brejeiras.

No passado fim de semana, participei num evento desta estirpe e jurei para nunca mais porque a distribuição dos ingredientes/utensílios/restante tralha se revelou problemática e afetou toda a dinâmica do piquenique. O almoço constituiu o ponto de viragem deste convívio porque correspondeu à altura a partir da qual tudo descambou. Holodomor foi uma brincadeira comparativamente ao massacre perpetrado pelo senhor Armindo e tudo por causa de água em estado sólido. O senhor Armindo faz-se acompanhar de um enorme orgulho no gelo que trouxe para o convívio com os amigos. Sempre que pedia um refresco, ele repescava-o da sua geleira e repetia as expressões “que qualidade”, “está mesmo a estalar”, “como estas não vês em arca nenhuma” e “se alguém precisar de refrescar as suas bebidas, pode e deve utilizar a minha geleira” em looping. De manhã à noite. Épá, que massacre!

Armindo esteve inquieto até à vénia unânime aos seus sacos de gelo, mas a minha inquietação (ainda) não desvaneceu. Dei-me ao trabalho de ler as letras miúdas que vestiam a parte traseira do saco porque podiam conter a explicação para a durabilidade do produto e não constatei nada de relevante. Inquiri-o sobre a adoção de técnicas para conservar a temperatura das bebidas, ele respondeu que não fazia nada de especial com alguma sobranceria. O gelo de Armindo era, de facto, o mais frio de todos os gelos que sucumbiam lentamente naquele piquenique. Só não se sabia o porquê.

Por mera pirraça, as restantes pessoas retiravam os refrescos das próprias arcas e continuavam as suas vidas. Eu fiz o mesmo, mas apercebi-me, de imediato, que a frescura estava a anos-luz da frescura da arca de Armindo. Quando me viu com uma cerveja que tinha retirado da arca dos meus pais, perguntou-me com um sorriso jactante “não está lá muito fresca, pois não?”. Respondi que estava com muita prontidão e evitando fazer a careta que todos fazemos quando a cerveja parece caldo verde.

O pessoal encarregue dos queijos não recebeu um elogio transversal. O pessoal que trouxe o presunto, as natas e os fritos idem. O gelo é objetivo, o resto está sujeito à apreciação de cada um. O melhor gelo é aquele que respeita a própria nominação. Era o do Armindo, ponto final. Por mais que quiséssemos contrariá-lo, os factos são indesmentíveis e marcavam posição. Mas não gostei da atitude do Armindo nem da forma frígida como se dirigiu ao estado da água. Diminuiu-os, mesmo sem ser por querer. O Armindo é um hidrófobo, mas só com o gelo dos outros. Não temo represálias sobre a acusação anterior, porque a prática é antiga.

Por isso, proponho que coloquemos algum gelo nas emoções e nos afetos. Sucumbiremos num fósforo, portanto as exaltações apresentam falhas ao nível da longevidade. Limitem-se a esperar pelo treco e depois desta trapalhada toda pedimos satisfações aos capangas do Maior.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

error: Este conteúdo está protegido!!!