A sensação que tive quando saí da sala de cinema após ver “Poor Things” foi arrebatadora. O novo rebento cinematográfico do realizador grego Yorgos Lanthimos mistura ao mesmo tempo Frankenstein com mundos utópicos, surrealismos vitorianos, aliados a uma impressionante cinematografia e uso de uma paleta de cores vasta que me fez querer entrar na tela e explorar aquele mundo. Mas de que trata o filme? Bella Baxter (interpretada por Emma Stone) é trazida de volta à vida por um cirurgião, o Dr. Godwin Baxter (Willem Dafoe). Um facto interessante: o nome de Mary Shelley, originalmente, era Mary Wollstonecraft Godwin. Curioso, não é?
Bom, Bella Baxter é uma experimentação deste cirurgião que, ao longo do filme, começa a ganhar uma vontade de conhecer o mundo que a rodeia e assim sair do lar do Dr Baxter e do conforto e viver uma aventura, onde se cruza com Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo) e uma miríade de situações caricatas que moldam o mundo de Bella e a sua percepção da realidade. Cada cenário do filme foi rigorosamente detalhado ao pormenor, os figurinos são excepcionais, transportando o espectador para algures no século XIX, cada frame parece uma pintura, o trabalho de câmara é absolutamente magnífico. E claro, as interpretações. Emma Stone é sublime como Bella Baxter, conseguimos acompanhar a evolução da sua personagem à medida que se aventura por vários pontos de globo, inclusive vemo-la na cidade de Lisboa, ou uma utopia sonhada Lisboeta, com Carminho a cantar um fado, constituindo uma das cenas mais emocionantes de todo o filme.
Por esta prestação, Emma Stone ganhou o Globo de Ouro de Melhor Actriz num Filme de Comédia ou Musical este ano, Melhor Actriz nos Critics Choice Awards deste ano e ainda está nomeada para o BAFTA e para o Óscar de Melhor Actriz este ano. Será que vai arrecadar ambos os prémios? Também nomeado para o Óscar deste ano, mas para melhor actor secundário, está Mark Ruffalo, que interpreta este aristocrata por vezes cretino que acompanha Bella nas suas aventuras e que por vezes deixa cair a máscara de homem civilizado, tendo diferentes contornos que o actor desempenhou muito bem. Por último, e não menos importante, queria mencionar Willem Dafoe. Para mim, um dos melhores actores de sempre. A intensidade com que ele faz cada personagem é de louvar, e aqui não é excepção. Aliado a uma incrível caracterização, Dafoe interpreta com classe este cirurgião que tem o dever de proteger Bella e de garantir a sua segurança.
“Poor Things” arrecadou 11 nomeações para a edição deste ano dos Óscares da academia. Melhor filme, melhor realização, melhor actriz, melhor actor secundário, melhor argumento adaptado, melhor banda sonora original, melhor caracterização, melhor guarda-roupa, melhor montagem, melhor fotografia, melhor design de produção.
Espero que ganhe muitos destes prémios, porque estamos perante um Colosso de Rodes da sétima arte, um dos melhores filmes do ano, que mistura comédia com utopias, tentações libertadoras, uma sociedade machista, enfim, tanta coisa que é melhor o espectador sentir por si. Sem esquecer o fado, o expoente máximo das raízes portuguesas, tão bem colocado aqui. Esta viagem é uma verdadeira peça de arte que espero que seja lembrada nos anos vindouros.
Estrelas: 10 em 10
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.