A Fundação AEP, no Porto, acolheu, há dias, um debate sobre o impacto da longevidade no concelho e em Portugal.
“Globalmente, a população com mais de 60 anos está a crescer mais do que os grupos etários mais jovens. E o Porto não é exceção. O envelhecimento da população está a acontecer a passos largos. Cerca de um quarto da população do Porto tem mais de 65 anos”, informou o vereador da Câmara Municipal do Porto, Fernando Paulo.
“Desde 2001, a população está a envelhecer mais no Porto do que em Portugal e mais em Portugal do que na Europa. Portugal é o quarto país mais envelhecido do mundo”, acrescentou Fernando Paulo.
Segundo dados da Câmara Municipal do Porto, são mais de 35 mil as pessoas com mais de 65 anos a viver na cidade e o diagnóstico aponta para “um aumento nos últimos anos, assim como para uma diminuição das redes de suporte e das relações informais”, refere um comunicado da organização.
“A cidade é grande e as pessoas vivem sozinhas no meio da multidão. Uma invisibilidade que vai aumentando em alguns grupos mais vulneráveis”, reparou Fernando Paulo.
“O turismo gera oportunidades, mas também constrangimentos. Os idosos vão relatando as alterações do espaço onde habitam. A loja tradicional, a mercearia a frutaria deu origem a outras espaços, eliminando os espaços de socialização, de encontro e partilha, capazes de manter laços de vizinhança”, descreveu ainda o vereador com o pelouro da Coesão Social, destacando o Plano “Porto cidade amiga das pessoas idosas – 2023-25”, que está em fase de implementação e inclui 80 ações com o envolvimento de entidades municipais, públicas e privadas.
“Acreditamos que a implicação de todos enquanto sociedade deve convergir e encontrar novas oportunidades para corresponder a estas necessidades. A expansão do envelhecer não é um problema, é, sim, umas das maiores conquistas da Humanidade. E o que é necessário é traçar políticas ajustadas para envelhecer de forma sã, autónoma, ativa e plenamente integrado. Esta é uma área de futuro. Estamos, de certa forma, a fazer história”, considerou Fernando Paulo.

Já Sofia Salgado, administradora da Fundação AEP, sublinhou a atualidade e a pertinência do tema: “Já em 2021 se sabia que mais de 50% da população portuguesa tinha mais de 45 anos. Estima-se que, em 2050, a proporção esteja perto dos 60%. Se passarmos a outro indicador, o da despesa do consumo doméstico, sabemos que, em 2050, 70% das compras serão feitas por pessoas com mais de 50 anos”.
Acredita, por isso, ser fundamental “promover uma mudança de mentalidade no combate àquilo que se chama ‘idadismo’ e passar a ver a idade de uma forma diferente, com a valorização da pessoa mais velha”.
Sobre o trabalho desenvolvido pela Fundação AEP, Sofia Salgado referiu que que “tem diligenciado de forma consistente o apoio ao empreendedorismo nacional e empreendedorismo sénior” e tem “trabalho com empreendedores de elevado valor pessoal e profissional que demonstram, de forma inequívoca, a opção de estimular o empreendedorismo sénior em Portugal”.
Destacando o Projeto Empreender 45-60, Sofia Salgado acredita ‘‘que é imperativo que as organizações e os governos criem estruturas e iniciativas que permitam reunir recursos, catalisar o pensamento estratégico e desenvolver novas políticas que ajudem a estimular o apoio a este empreendedorismo sénior”. “Representa um enorme potencial porque vai suscitar prosperidade económica, criando mais emprego, facilitando a relação entre gerações e apoiando jovens no seu empreendedorismo através da experiência dos mais velhos”, defendeu.
Este debate aconteceu por ocasião da instalação no Norte da Age Friendly Portugal, uma associação empresarial da qual a Fundação AEP faz parte.
A entrada oficial da Fundação AEP na Age Friendly, que surgiu em 2019, é um marco histórico para Ana Sepúlveda, presidente da Associação Age Friendly Portugal e CEO da 40+ Lab: “Fomos a primeira associação empresarial a nível mundial a nascer com esta missão de promover a economia ligada à longevidade e ao envelhecimento. É isto que nos move. Somos um conjunto de empresas cuja direção inclui a JPAB, 40+lab e a Cluster Advisor. A passagem para o Porto é o reconhecimento do pioneirismo que a cidade tem tido nesta área. É um facto histórico”.
“O Porto é a segunda cidade que tem o Porto4aging, uma estrutura para o desenvolvimento da investigação ligada às questões do investimento. Foi uma das primeiras cidades a integrar a Liga das cidades Amigas de Pessoas Idosas e a primeira a ter um plano para o envelhecimento”, acrescentou.
Ana Sepúlveda sublinhou “o papel que a Fundação AEP tem tido na área do empreendedorismo sénior, mas também na capacidade de internacionalização, através da Rede Diáspora e a ligação aos portugueses espalhados pelo mundo”: “Somos o quarto país mais envelhecido do mundo, mas estamos aqui a marcar passo e queremos ser os líderes”.

Por outro lado, Helena Gonçalves, coordenadora do Fórum de Ética da Católica Business School, um espaço de encontro que tem como objetivo promover a ética empresarial, através da troca de experiências, da reflexão conjunta e da criação e partilha de conhecimento, referiu que o trabalho que desenvolvem” é feito com empresas e para empresas”.
“O tema do estudo realizado em 2023 é a Diversidade Intergeracional no trabalho. Os inquéritos que fazemos dão-nos, sobretudo, resultados qualitativos, ou a voz do que as pessoas sentem. São as narrativas individuais sobre o trabalho de equipas diversas, verdadeiras fontes de reflexão para as empresas e com as empresas”, indicou.
Segundo a investigadora, “há cada vez mais uma dissonância entre os mais novos e os mais velhos e o desafio é como manter essa partilha do conhecimento organizacional que se vai perdendo”. “Há muito ‘idadismo’ nas organizações”, completou Helena Gonçalves.
“Fala-se da família descendente, mas não existe o tema da família ascendente e esse vai ser o verdadeiro tema nas empresas. Todos nós vamos ter de ser cuidadores informais das nossas famílias, pois não vamos ter instituições que acolham as pessoas idosas”, acredita ainda.
Além disso, acrescentou que “as empresas não falam muito de doenças crónicas”: “E com o avançar da idade os trabalhadores começam a tê-las e isso tem a ver com equidade. Não existindo, leva os trabalhadores a esconder essas doenças crónicas”.
Para Gabriela Queiróz, associada sénior da JPAB – José Pedro Aguiar-Branco Advogados, o envolvimento de uma sociedade de advogados ‘”prende-se precisamente com os números do impacto do envelhecimento na sociedade, e, por isso, é impensável que o Direito não dê a devida importância a esta realidade social”: “Se queremos que avance num determinado sentido, o Direito pode e deve promover essa alteração de paradigma de mudança de mentalidades”.