OPINIÃO: “É para aquilo porque se sente!” sai com estricnina

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

“Há dias em que é para aquilo”. Indago à cata de argumentação cuidada e com aprovação do controlo de qualidade da filosofia pela qual o indivíduo se rege. “É para aquilo, tu notas que é para aquilo. Sente-se!”. A perplexidade cessa o discurso que preparei há coisa de três segundos e os maxilares dilatam inadvertidamente. O diálogo resiste à calentura da curiosidade e teima em não despir o enigma. Uma sensação – que podia muito bem corresponder à palavra que resulta do somatório das descrições de estranheza, insanidade e calafrio – invade o recanto à orla do rio. O silêncio autoproclamar-se-ia rei não fosse um assunto menor a impedi-lo.

O vácuo descrito não performa da maneira que nos habituou. Pelo cheiro, momento em que se encarquilha o nariz ao mesmo tempo que elevamos os dedos polegar e indicador e os friccionamos, detetamos a particularidade que emerge. As frases reproduzidas, apesar de repletas de uma mão cheia de nada, conduzem-nos à anuência momentânea (seja qual for!) relativa à vontade súbita e ao impulso sentido para agir/comportar-se daquela forma. Condescender legitima o futuro conjunto pelo facto de o conjunto de palavras visados nos atar os pés quando a vontade é desenlaçá-lo com um chorrilho de questões a roçar a impertinência.

Para se ter uma ideia mais clara do alerta que tento propagar, é o equivalente musical a deslocarmo-nos de carro do Norte ao Sul do país enquanto alguém se mune do telemóvel e emparelha uma playlist de música marca Queen e, quando lhe assola o aborrecimento, nos talha as orelhas com as “contribuições” de Marisa Liz alegando que adora vê-la no “The Voice”. “Já não ouvia esta playlist há muito tempo! Estou revigorado! Agora, sim, as férias sabem as férias! Hoje, o dia era mesmo para isto! Eu senti!”. Como se as férias fossem comestíveis! Tempo para um ligeiro dilatar de maxilar, um aproximar da mão à testa e para o pânico borbulhar. Cheirou-me que iriam ficar tão assustados quanto eu! Basta desta expressão. Recuso-me a apunhalar continuadamente a arte de bem escrever.

Arte de bem escrever. Recupero a frase “há dias em que é para aquilo”. Tento colocar as duas expressões num período igual, mas é infrutífero. Separadamente, constatei que nem se tocam. Se fosse fácil relacionar os dois conceitos, eu não o fazia. Contudo, como é difícil, nem lhes vou tocar. Conselhos do Samuel Úria são para seguir escrupulosamente. Este espécimen de vazio está entre o fácil e o difícil (de encarar) e muito longe do nível intermédio. Parece profundo e repleto de um requinte que assenta a poucos, mas é quase tão reles quanto a estalada que marcou a bochechinha do Chris Rock. Reitero o “quase”. Nunca agredi o energúmeno que grafou a expressão na História. Sou anti-violência. Bem… era. Retiro o “quase”.

Denoto, ainda, uma cumplicidade com uma entidade que não é humana. Superior, se vos fizer sentir mais aconchegadinhos. A pessoa da expressão que azucrina miolos pertence à lista VIP do manda-chuva de que não se conhece o nome. O mensageiro não é o inventor (nunca o foi!) e importa separar os macacos pelos respetivos galhos. Por questões de confidencialidade e anonimato, o discípulo recusa revelar o nome da pessoa que cunhou a bizarria. Percetível. Evitei, ao máximo, colocar em xeque a pessoa oculta. Solicitei o número de telefone. Pedido negado. Barafustei, sem sucesso. Tinha de sair na rifa. Logo eu, um fervoroso paladino dos favores a amigos de amigos. Sempre agi perspetivando o fim mencionado e não me arrependo de o ter feito. Agora, em tempo de recompensa, negam-ma.

Começo a comungar da perspetiva de Caim, segundo José Saramago. “Fazer as vontadinhas todas a Deus e ele só aceita o meu irmão? Penar tanto ou mais e ser rejeitado? Então, não vale a pena continuar a esforçar-me. Prefiro assassinar um familiar e assistir à desgraça com um balde de pipocas. Afinal, tudo vai correr mal e muita gente vai ser dizimada”. Reforço a ideia da anti-violência. Sou adepto da paz, do Woodstock 1969 e da estricnina na mesa de cabeceira. Tenho ciúmes da relação entre um ser humano e alguém que suponho que o seja e desejo praticar homicídio. O entrave está no preço de armas letais. Eu não sinto os dias que são para aquilo. Esfalfo-me e nada: pesquisei intensivamente na internet e com a ajuda de uma ou duas brochuras, reservei um retiro espiritual na Quintinha do Mar (Ericeira) a fim de estar comigo e perceber o que fiz de errado, passei uma semana em Pamplona só para manter a forma, tornei-me youtuber e criei um canal onde explano detalhadamente cada acontecimento desde a primeira vez que a frase foi vocalizada até à tatuagem que tenho no peito: “Não me façam rir. Os dias que é para aquilo não existem.”, em latim, mesmo para o estilo.

De súbito, sinto uma mão no ombro:

– O senhor sente-se bem? Precisa de ajuda? Quer ligar a algum familiar seu? Estamos a ouvi-lo há algum tempo e parece assustado com algo!

– Deixe-o sossegado, menina! Ele não diz coisa com coisa! Há dias em que lhe dá para aquilo e acabou! O que se há de fazer? – respondeu alguém que se abeirava.

– Caríssimo, desculpe lá, mas os dias em que lhe dá para aquilo não existem e custa-me ver pessoas a acreditar nessa patranha!

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