Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
Todos sucumbimos ao estio. Que caloraça. Está que não se pode. Chega a ser desagradável. Mais do que desagradável. Eu aposto as fichas na condição de “fastidioso”, tal como todos os dizeres computorizados deste que vos tem escrito. Não se trata de humildade autoral, mas sim de evitar arremessar punhados de areia às trombas dos seguidistas (até porque, neste momento, os grãos fervem e grelham qualquer planta de pé).
Aliás, aproveito este espaço para fazer um exercício – paradoxal, tendo em conta a auto-depreciação anterior – e enaltecer uma qualidade que encerro face à meteorologia: a componente da Geofísica, que tem por objecto o estudo dos fenómenos atmosféricos, com aplicação na previsão do tempo por medições da temperatura, precipitação, velocidade e direcção do vento, etc., é capaz de me enfadar somente quando exala um bafo infernal; porém, a arte e a connaissance para me aborrecer a bel-prazer são exclusivas do meu engenho.
A Route 66 espelha o deserto ideário no qual caminho: desde a aridez das reflexões à desidratação imaginativa, com passagem pela infertilidade de concepções que sonegam as sementes da vida que recusa medrar. Está abafado. Dizem que no inferno faz temperatura mais amena e, em alguns pontos, até o ar-condicionado e ventoinhas bafejam promissoras brisas. Bem, não custa nada dar lá um saltinho. O que é que se perde? Mal não fará. Após tímidas movimentações, a acção é retraída. Não, afinal não. Aqui até corre um arzinho. Está quente, sim, mas estou tão bem deitado. Ontem, fui fazer jogging e tenho as pernas com carga excessiva. Talvez fosse da braçadeira que prendia o telemóvel ao meu braço e do relógio que empunhava para contabilização dos passos.
Como consequência da tosta que se abate sobre a moleirinha, valores humanistas (solidariedade, fraternidade, partilha, entreajuda, altruísmo) compunham peças de um puzzle que, a par da liberdade e da inimaginável quantidade de atalhos para o possível/desejável, representavam a mística da Route 66, exposta por Kerouac e Steinbeck. E por outros, provavelmente. Falo dos que conheço. Isto da simbologia é muito engraçado e, até, lírico, mas descura o calor e encobre-o no espaço narrativo. No máximo, atribui-lhe três ou quatro características. Sabe a pouco e esforço-me por manifestar pesar, em ocasiões que assim o exijam. Até agora, inexistiram tais ocorrências. Embora os elementos ficcionados fossem inoculados com total desembaraço, zero coerção ao nível de impulsos e autonomia para agir em conformidade com aquilo que pensavam/sentiam, o nível térmico de cada corpo rapidamente os distanciava desse estado ébrio. De que vale alimentar a sonda da liberdade quando se é devastado pelo choro copioso dos poros? De que vale arrotear trilhos recônditos e achar que nos aproximamos do céu, se nos esvaímos em suor e desconforto? De que vale sentir a imortalidade a percorrer a epiderme por escassas horas – dias, se quiserem – se a indumentária teima em não descolar do esqueleto?
Durante o relato desta teoria a um amigo próximo, constato a total atenção e embevecimento pelo que ouvira: olhos arregalados, meneares verticais de cabeça de dez em dez segundos, sorveres de cerveja igualmente espaçados e dois pães com chouriço engolidos (ainda devem morar resquícios nas bochechas do roedor). O inquérito pressentia-se. Estava pronto para desfazer e contornar o manancial de refutação, porque aquele rapaz é pródigo nisso. Ele é danado para o contraponto. A boca dilata, as primeiras palavras são pronunciadas e… pimba! obstrução da garganta. Deus estava ali. Através do olhar que me dirigia, previa um contragolpe fortíssimo ao nível da argumentação. O ethos e o pathos funcionam a meio-pau, mas o logos é veloz e encadeado. Recuperou a fala e indagou algo relacionado com o facto de as personagens do Easy Rider não serem atacadas pela constipação, pois andam de mota a alta velocidade e, depois, estancam a posição em alguns espaços fechados, no decurso do filme. Contrapus, de imediato, afirmando que vira o filme oito vezes e que o sabia de cor. Fez-se silêncio. Envergonhado, admitiu o erro, desbloqueou o telemóvel e fotografou uma história para o Instagram, com a descrição “a debater sobre a liberdade com o bro”. Enfim, uma tarde bem passada.
O fastio rodopia sobre o eixo próprio. Volta ao comezinho. Ai, a divagação. A errância. Poupo-vos ao triste papel de pedir desculpa por estar a um danoninho de tornar este texto revigorante porque ainda sei qual o lugar que ocupo e quais as aptidões que me destacam. Uma delas é metamorfosear temas no espectáculo mais enfadonho possível. O tempo cálido belisca-me a constantemente. Mal saio da banheira e limpo as gotículas, sinto o corpo entregue a uma quentura bem desconfortável. Volto a passar a toalha, a fim de secar a humidade que resta, e eis que me deparo com as primeiras revelações de transpiração. Ontem, repeti o ritual três vezes e, por alguma razão, considerei estar na senda do sucesso. Falhei. Continuei a suar. Desisti e tentei mover-me somente quando fosse imperativo. De nada valeu. Parecia a parte da manga de uma t-shirt que dá guarida à axila.
Nos últimos dias, suo a rodos quando mastigo alimentos, tento adormecer, folheio um livro, assisto a programas de televisão, escrevo a seco. Torna-se grudento. Particularmente, no contacto com o papel, porque a folha humedece e rapidamente se rebela contra as falangetas alheias. Adoptei a posição supina e a de estátua, em simultâneo. Nada está grafado, atrevi-me somente a pensar. A única voz que escuto é a da minha cabeça. Não abri a minha porque é meu intento economizar movimentos. E, mesmo assim, continuo a escorrer água. Pensar é movimentar ideias? Esta alínea conta para a equação do suor? Bem, vou deixar para lá.
P.S: Alego, em minha defesa, não ter consumido substâncias psicotrópicas, alucinógenias ou psicadélicas. Sei que ninguém perguntou, mas o esclarecimento é sempre útil.
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.
Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação