O mundo gira, os carros aceleram na rua, as pessoas correm de um lado para o outro, fechadas na sua bolha e com o stress a gritar… mas Fernando Ferreira está, no local que escolheu para construir família, em Vila do Conde, no meio da natureza, pacientemente à espera para registar o melhor movimento de um inseto que andava a acompanhar há vários dias.
É fotógrafo de natureza há cerca de 10 anos e já foi premiado diversas vezes em concursos da área. Recentemente, conquistou o primeiro prémio e uma menção honrosa no Concurso de Fotografia “Insetos Polinizadores”, promovido pelo município de Avis, com uma fotografia de uma borboleta-loba e outra de um abelhão-cardador.
É sabido que tentar captar imagens de animais não é tarefa fácil, ainda para mais se são espécies difíceis de se encontrar e pequenas. Neste caso aplica-se o ditado: “a paciência é uma virtude”. Sem ela, Fernando Ferreira não teria conseguido, ao longo destes anos, fazer um registo fotográfico exaustivo da fauna e flora de algumas freguesias do concelho de Vila do Conde.

“Temos de ter em mente que vamos passar muitas horas, muitos dias perdidos, em que não se vai conseguir fazer rigorosamente nada. Muitas vezes, até se consegue, mas, depois, chega-se a casa e, quando se vai ver no computador, os registos não ficaram tão bem como nós pensámos”, constatou Fernando Ferreira.
Além disso, outro dos cuidados a ter neste tipo de trabalhos é “evitar ao máximo criar um grande impacto no local onde se vai estar a fotografar”, seja através das roupas, ou devido ao lixo produzido enquanto se está no mesmo sítio durante várias horas. “Depois, é tentar evitar ao máximo stressar os animais. (…) Devemos saber os limites das coisas. Não queremos o troféu logo à primeira vista, não! Vamos com calma! Não conseguimos hoje os melhores resultados, no outro dia, tentamos melhor”, acrescentou.
Apesar de poder ser desafiante, fotografar animais também pode ser divertido e trazer situações inusitadas. Além da fotografia, Fernando Ferreira também faz o resgate de alguns destes animais, levando-os de zonas em que possam estar em perigo para locais seguros, por vezes, mais longe da presença do ser humano.
Um dos exemplos foi o de uma cobra-rateira juvenil, que andou a acompanhar durante vários dias e que, possivelmente, iria ser atropelada numa determinada rua, mas conseguiu levá-la para outro espaço. Assim que a pousou, achou que iria fugir de imediato, mas o animal trocou-lhe as voltas: “Eu estive 45 minutos a fotografá-la, tirei-lhe mais de 200 fotografias. Ela parece que percebeu a minha intenção, o que estava a tentar fazer com ela e deixou-se estar. (…) Ela parece que olhava para mim a fazer poses para eu lhe tirar várias fotos. Eu tenho fotografias incríveis”.
Nesse mesmo dia, um agricultor que passava e que conhecia o fotógrafo, mas não se apercebeu do que estava a fazer contou: “Você pregou-me um susto que você nem imagina! Porque eu pensei que você estava morto! É que estava literalmente deitado no meio da rua”.

Mas como será que começou a esta paixão?
Mesmo sendo um desafio, foi neste trabalho e no meio da natureza que Fernando Ferreira encontrou a felicidade e realização profissional e pessoal. É um dos exemplos que personificam o ditado que diz que “nunca é tarde para mudar”, uma vez que foi aos 40 anos que teve a possibilidade de comprar uma máquina fotográfica digital e começar a viver, finalmente, uma das suas grandes paixões: a fotografia.
Cedo começou a trabalhar para ajudar os seus pais, tendo passado por vários armazéns e, depois, teve também empregos e formações na área da informática. Contudo, em 2014, após o falecimento da mãe e de ter ficado desempregado, “as coisas ficaram um bocadinho más”: “Comecei a refugiar-me um pouco nas minhas caminhadas solitárias pelo meio da floresta, que já era uma paixão minha desde pequenino”.
Fernando Ferreira conta que caminhava por vários locais da sua freguesia por onde era habitual outras pessoas fazerem o mesmo: “Acabei por me aperceber que, pelos sítios por onde as pessoas passavam diariamente, existia tanta biodiversidade que ninguém dava conta dela, passava tudo ao lado”.
Então, começou a levar consigo uma pequena máquina digital que tinha na altura para fazer “registos de tudo aquilo que ia encontrando pelo caminho” e o resultado foi marcante: “Tem aqui uma beleza tal, nós temos um tesouro de tal ordem às nossas portas”. Mas Fernando Ferreira não queria ser o único a usufruir de tal cenário. “Tenho de dar a conhecer às pessoas esta beleza”, recordou, referindo que começou por criar uma página nas redes sociais para publicar as imagens.
Já fotografou variadas espécies de insetos, répteis, aves e plantas que encontrou, sobretudo, na Reserva Ornitológica de Mindelo, a área protegida mais antiga de Portugal, e em todas elas viu e registou o seu encanto.

“Começou a surgir um feedback fantástico! As pessoas começavam a perguntar-me quase diariamente se isto era aqui na nossa casa, se isto era aqui na nossa rua. E comecei a ter muita gente a visualizar e a procurar o meu trabalho”, disse Fernando Ferreira. “Comecei a apostar mais. Em vez de sair e só fazer por carolice a fotografia, não, eu comecei a ter objetivos. Vou tentar, dentro de um determinado percurso, registar o máximo possível de espécies que eu conseguir para eu ficar com conhecimento, mas também para dar conhecimento aqui às pessoas daquilo que temos dentro de portas e que desconhecíamos completamente”, referiu.
Na altura, Fernando Ferreira participou num concurso da Quercus e recebeu dois prémios com duas fotografias e admite que isso fez “impulsionar ainda mais o trabalho e a vontade de continuar”: “Fiquei logo maravilhado! Não estava minimamente a contar, ainda para mais com uma simples máquina”.
Para além de fazer os registos visuais, o fotógrafo autodidata considera que é também importante educar e sensibilizar a nível ambiental, por isso, publica em todas as fotografias uma ficha técnica para que quem está a ver possa saber qual é a espécie e ter alguma informação básica.
“Comecei a aperceber-me que muita gente desconhecia aquela espécie. Muitas delas diziam: ‘Ah! Eu, mal vejo isso, mato logo’. E eu disse: ‘Pois, isto não pode ser. Eu vou ter de arranjar aqui uma forma de educar, por assim dizer, as pessoas, de informá-las de que estes bichinhos não fazem mal a ninguém, têm a sua área de atuação na natureza e são super importantes para o nosso ecossistema’”, revelou.
Sempre com base em “informação fidedigna, científica sobre cada espécie” que foi encontrando em sites da área ou pedindo ajuda a profissionais, Fernando Ferreira foi fazendo, assim, um registo pormenorizado e afirma que foi “pioneiro na Internet a fazer uma coisa destas”.

Desde então, várias oportunidades têm vindo a surgir, tendo sido uma delas “a primeira exposição fotográfica didática de biodiversidade”, que organizou em 2018 no concelho de Vila do Conde e foi “um sucesso”. Fernando Ferreira explicou que tentou que fosse algo imersivo, com decoração, sons ambiente e vídeos relacionados com o tema, e “foi tudo pensado de uma forma a elucidar as pessoas e a educá-las a nível de conhecimento de cada espécie”.
Mais tarde, promoveu outro evento, desta vez, no Centro de Ciência Viva, no qual falou sobre o seu trabalho e fez uma exposição inclusiva das suas imagens, permitindo que pessoas com daltonismo pudessem ter a melhor experiência possível. Os próximos objetivos passam por criar exposições fotográficas inclusivas para pessoas cegas.
Atualmente, continua a dedicar-se em exclusivo à fotografia, com alguma dificuldade e sentindo que faltam apoios, mas acredita ser importante “continuar com este trabalho em prol da educação ambiental e da natureza, mas também da inclusão”.
Além de estar em campo a fotografar, Fernando Ferreira também promove estas temáticas junto de escolas, algo que tem vindo a ser recompensador, não só pelas mensagens de carinho que recebe por parte de miúdos e graúdos, mas também por perceber que a mensagem “passou”: “Uma coisa fantástica! Isso, para mim, é tudo”.

“Posso estar aqui em casa todo stressado, mas, se eu for para o meio de uma floresta, pegar na máquina, desaparece tudo”
“Eu sou de uma geração em que nós saíamos da escola e a primeira coisa que a gente fazia era deitar a mochila lá para um canto da casa e (…), quando a minha mãe se apercebia, nós já estávamos a léguas de distância. Estávamos metidos na floresta”, lembrou.
“Passávamos o resto da tarde toda a brincar na floresta. Nós éramos de uma geração que passámos a vida inteira em contacto com a biodiversidade, sempre em contacto com a natureza, daí a minha paixão desde sempre pela natureza e daí a minha paixão atual. É uma paixão que nunca vai acabar, porque, se há local onde eu me sinto bem, é no meio da floresta, é no meio da natureza”, continuou Fernando Ferreira.
“Eu posso estar aqui em casa todo stressado com uma determinada situação, com uma dor de cabeça enorme, a doer-me o corpo, seja o que for, mas, se eu for para o meio de uma floresta, pegar na máquina ou até for só para dar uma volta, isso desaparece tudo, por incrível que pareça”, confessou ainda.
Hoje em dia, este gosto e entusiasmo já são partilhados também pelos seus dois filhos. O mais velho, Luís, que ainda está a estudar e produz alguns trabalhos em vídeo juntamente com o pai, e a mais nova, sendo que os três participaram num dos últimos concursos referidos sobre insetos polinizadores, que “estão cada vez mais a desaparecer”.
“As pessoas não têm a noção que, para registar a borboleta bonita com que eu ganhei agora o primeiro prémio, eu estive horas para poder fotografá-la. (…) Escolhi esta para o concurso, no qual tive a felicidade de a ver ser premiada com o primeiro prémio, o que é sempre bom, incentiva-nos um bocadinho. Para além de que a causa é super importante”, declarou Fernando Ferreira.
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“Se nós não conhecemos as coisas, nunca as vamos amar, nunca as vamos proteger”
Fernando Ferreira acredita que tanto a Reserva Ornitológica de Mindelo como outros espaços onde a biodiversidade está bem presente deveriam ser melhor preservados e promovidos. “Pouca gente conhece aquele espaço. Há locais que não conhecem que ali, ao lado deles, existe uma reserva. (…) Temos aquela máxima que é: a gente só protege aquilo que ama, mas nós só amamos aquilo que conhecemos. Se nós não conhecemos as coisas, nunca vamos gostar delas, nunca as vamos amar, nunca as vamos proteger”, defendeu.
“Por isso, tanto o meu trabalho como o de muitos colegas é darmos o máximo de conhecimento possível às pessoas, porque só assim é que as pessoas depois vão dizer: ‘Afinal, isto existe. Afinal, isto é bom para nós, tiramos muitos benefícios. Temos de o proteger’. Só assim é que as coisas funcionam”, completou.
Foto: DR