OPINIÃO: Oportunidade de emprego – autor de rubrica precisa-se

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

“Acabo de receber a notícia de que há já alguns episódios que olvidam as referências com as quais cresceu/tem vindo a crescer”. Boquiaberto, gaguejo e finjo não perceber do que se trata. “Oiça, a caixa de correio está entupida. Estou há 2 minutos a retirar cartas endereçadas ao autor e ainda faltam umas quantas. Isto parece um poço sem fundo”. O Provedor do Autor desta rubrica transverberava a razão pela qual o fórum está em franco declínio. Ainda me lembro do quão imperturbável estava o céu naquele dia: senti-o distante e frio, com fleuma no olhar. A pluviosidade baldou-se, tal como o sol. Devia ter percebido que algo de mau estaria para acontecer.

À medida que as unhas arranhavam a caspa, solicitei a explicação do aparente problema e prontifiquei-me a resolver o caso. “Não se faça de asno. Refiro-me a inserções textuais com base em movimentos artísticos, sociais, desportivos, políticos, económicos, etc. Uma referência de qualquer progénie. Os textos que tem produzido pecam por falta de qualidade. A plateia queixa-se desde sempre o início. Contudo, anteriormente atribuíam-lhe algum valor porque sobrava sempre algum paralelismo, por mais estrambólico que fosse”. Ainda retesado na cama, detive os movimentos e deixei escapar a inquietação – “as pessoas voltaram a ler tudo, parágrafo a parágrafo, do início ao fim, de cima para baixo, da esquerda para a direita?”. A chamada tinha caído.

A repentina constatação da nudez impeliu-me a levantar da cama, babujei a boca com água para extrair o fel do hálito – relembro o pensamento que me assomou: “A Brigitte Macron nunca foi um homem. Bem, eu também pensei o mesmo da Wendy Carlos e depois nunca mais fui capaz de ver o Clockwork Orange” – e comecei a besuntar o frontispício com espuma de barbear. De súbito, irrompe novamente pela telefonia o “ring, ring, ring” e, na minha cabeça, conjecturo a utilidade da cortina que Anthony Dawson teve nas mãos quando se preparava para sufocar Grace Kelly (Dial M for Murder). Atendo, articulando as palavras da boa educação “em que posso ser útil?”. A Endesa tenta mover-me no sentido da redução da factura mensal, mas eu não me fico. Estava bem a pagar o montante que pago e abri-me com o simpático telefonista.

O tique de passar a mão pela cara (terminado num cofio de barba) atestou a presença de espuma. Corri para o lavabo, raspei a penugem, enxaguei o rosto e, voilá, só bigode. Tom Selleck avivou-me a memória. Seguiram-se, respeitando a ordem descrita, Daniel Day-Lewis (em Gangs of New York), Mr. Potato (Toy Story), Salvador Dalí, Friedrich Nietzsche, Groucho Marx e Frida Kahlo. Arrebatado pelo chorrilho de referências, convenci o traseiro a repousar na ponta da cama e formulei hipóteses acerca de uma possível explicação para o sucedido. A mente humana é fascinante, de facto.

O Provedor do Autor contacta-me, ministra-me um raspanete que muito cuidadinho com ele porque, a partir de agora, vou redobrar o cuidado aquando da criação textual e, do nada, desato a cuspir essas artimanhas? Ainda ontem à noite, enquanto olhava pela janela com vista para as restantes habitações que circunscrevem a minha, uma vizinha limpava a carpete da sala com o aspirador e eu sabia que já tinha assistido àquelas movimentações, incrustadas a um ritmo de fundo. Apercebo-me agora, a tempo de acrescentar (espero), que a cor do soutien se localizava no pantone geográfico de um que, a horas tantas, dá às asas na fita Boogie Nights.

A desconexão invadiu-me. As peças do puzzle recusavam o encaixe. De lápis sobre a orelha, aproximava e distanciava os óculos mecanicamente. Às vezes, podia surtir efeito. Na televisão, a eclosão de um pensamento de formidável luminosidade manifesta-se através de uma lâmpada animada e eu esperei ansiosamente tal acontecimento. A tenacidade registou valores desastrosos e o recorde negativo foi batido. (Des)esperei até repescar a expressão de um génio e interpretar o verdadeiro significado: “as referências são como o ketchup”. E, à moda de São Tomé, foi ver para crer. O Provedor do Autor injuriou o modelo vigente e vexou o orgulho do autor, antecipando a interiorização da mensagem e o encarrilar da rubrica por parte deste. Resta a confissão modesta e não ficcional: sob pressão, sou o melhor a deslindar referências. A certificação do auto-elogio germina pelo simples facto de considerar que a palavra, em pleno século XXI, vale ouro.

Ring. Ring. Ring. Redirecciono a retina para o dispositivo em histeria, na mesa de cabeceira. Instintivamente, a genuflexão é a primeira ideia abalar os alicerces, seguida da extensão lenta do braço e do amarrar na pega do telefone. O aparelho é silenciado, um suspiro é exalado. A nudez ressalta e eu apresso-me a vestir a roupa interior. O estado de absorção era de tal ordem que a libertinagem só tinha sido notada uma hora após a alvorada. Fica o aviso para os que se embebem embrenham nos problemas: após acordar, agasalhar o corpo é a primeira tarefa a cumprir; segunda é comer algo, excepto se estiverem a braços com um jejum intermitente. Ring. Ring. Ring.

O “bom dia” é atirado aos leões, enche-se o balão do desassossego até à fala do interlocutor. Era o Provedor do Autor. “Esqueça aquilo que eu lhe disse. As referências e o diabo a quatro. Enganei-me no destinatário, pensei que estivesse a falar com a outra rubrica que tenho. A bem-sucedida. Quanto a si, tente sobreviver. Ainda não é capaz de decorar aquelas frases de artistas/autores importantes, aplicá-las em diferentes contextos e discorrer com base nesse ponto de partida?”. Admiti a fraqueza, sem rodeios. “Como é que quer ter referências então? Primeiro, apreendem-se as frases; depois, surgem os paralelismos, as comparações e tudo o resto. Atrevo-me a dizer que é um caso perdido e que já me arrependi de ter aceitado este cargo. Passe bem!”.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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