OPINIÃO: Rigor, tolerância e sunsets – tudo na mesma farsa

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Acto I

Cena I: alguém, que não se sabe quem, de costas para o público, a afiar um pedaço de madeira.

Alguém que não se sabe quem – A tolerância, valor outrora hipervalorizado, traduz-se oficialmente em arcaísmo. Interpretem-me como se fosse um texto puramente informativo (ambos pensámos em textos jornalísticos e rimos. Admita, leitor!). Sintacticamente, os órgãos do vocábulo ainda estão a quilómetros de defenestrar e gozam de perfeição mecânica. Refiro-me, para os mais distraídos, à tolerância como motor da harmonia interpessoal. A polarização social, a desconsideração do meio para atingir o propósito, o comportamento velhaco e com principal azimute nos cifrões e os sunsets feitos à cobrança explicam, em parte, o declínio de gerações instruídas e informadas.

Cena II: entram Personagem 1 e Personagem 2 com túnicas romanas, mastigando alperces.

Personagem 1 – O primeiro acto da crónica demorada contém excessivas banalidades. Bem, numa rápida análise, o leitor enxerga a falsidade. Se as tivesse contido, alguém, que não se sabe quem, evitaria os revirares de olhos que vaticinou. O treinador ordena à substituição e ergue a placa: “contém” agradece o apoio dos adeptos e cumprimenta “possui”, que coloca o pé direito na quadra e, simultaneamente, se benze com três cruzes sobre o semblante. Moderação clama por concisão, por rigor e por tolerância. Mantenho a opinião sobre as tais banalidades. Está ao alcance de todo o ser que acorda, que expele a primeira urina do dia e que já tenha frequentado transportes públicos.

Personagem 2 – Deixaste de ver futebol e eu apoiei a decisão. Na condição de tia-avó, de apreciadora de moda de alta-costura e de marisco, é o que me resta. Contudo, ainda nem um mês passou e tu já empregas termos futebolísticos no uso da linguagem corrente. No domingo, deu-me a sensação de te ter visto a assistir à liga inglesa, mas não quis injuriar à toa. Se calhar, era verdade. Vais desgraçar-te, Amadeu.

Personagem 1, entretanto designada por Amadeu – A tia-avó sabe qual o motivo que precipitou semelhante conduta. Aliás, antes de ter optado pela aventura no magnífico mundo dos sunsets, a tia-avó discordou do meu analista, opinião que desenlaçou o nó enredado no confronto de ideias. Agora, arque com as consequências. A presença quase diária neste contubérnio de final de tarde espoletou a radicalização do comportamento. Inscrevi-me no verão, antes de o calendário das principais competições europeias ser revelado; quando dei de caras com tal material, pude comprovar que a maioria das partidas de futebol se realizaria no mesmo intervalo. Lamento, mas para o peditório da ubiquidade já dei todas as esmolas.

Cena III: A personagem 1, também designada por Amadeu, e a personagem dois, conhecida por tia-avó, movimentam a correspondência recebida à semelhança da mão simbolizada num baralho de cartas à medida que trocam galhardetes.

Personagem 2, conhecida por tia-avó – Olha lá, Amadeu, já estou há algum tempo para te fazer uma pergunta! Não ma leves a mal. Por que razão me chamas “tia-avó”? Analisando a genealogia das relações mais aconchegadas, corroboro o facto de os envolvidos se centrarem apenas num dos termos: ou invocam o/a tio/a, ou invocam o o/a avô/ó. A utilização do termo integral, segundo os registos que possuo e as pesquisas que efectuei, (a tia-avó tira, da algibeira, papelinhos minuciosamente vincados e distribui-os) é inexistente.

Personagem 1, entretanto designada por Amadeu – Ó tia-avó, a sério? Que raio de pergunta! Deixe-me ver se entendi: está a queixar-se por eu aplicar a dosagem certa de concisão e rigor? É essa a preocupação, correcto? A senhora não é apenas minha tia, nem minha avó. É irmã da minha avó e, como tal, minha tia-avó. Sempre a tratei dessa forma, excepto no momento anterior à aprendizagem da fala. Aí, ficava-me pelo “AHHHHH! AHHHHHH! AHHHHHHHHH! AHHHHHHH! AHHHHHHH!”. Cinco berros durante o choro codificavam – com a moderação reconhecida a um imberbe – a consternação e o desespero sentidos sempre que realizássemos a inspiração no mesmo espaço.

Personagem 2, conhecida por tia-avó – O quebranto que mais labor me provocou. Até hoje, não observei tal amargura! A ligação entre as nossas almas era nula. Em contexto de convívio familiar, os corpos saudavam-se com distância e o toque ao nível da bochecha era o último reduto da comodidade. Quando te encontrei, no sunset de um pequeno barco sobre o Rio Tejo, o muro ruiu. A tolerância flutuou. Até te dispuseste a oferecer-me o Tequilla Sunrise que, minutos depois, desaguou em vómito. O estômago revelou-se impreparado para suster tamanha surpresa.

Cena IV – Entra Ester, a irmã mais nova da Personagem 1, entretanto designada Amadeu. Traz, debaixo do braço, um bilhete engelhado, de conteúdo imperceptível à vista desarmada.

Ester – UÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁAÁ! UÁÁÁÁÁÁAÁÁÁÁÁÁÁÁAÁ! UÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁA!

Personagem 1, entretanto designada por Amadeu – Esterzinha, então? Não chores mais! Conta-me o que aconteceu! Anda cá ao irmão!

Personagem 2, conhecida por tia-avó – O que se passa? Que gritaria é esta? A miúda tem o Diabo no corpo! Ester, pára! Menina! Acudam! (fingindo transpor para outra dimensão da realidade, a tia-avó aproxima-se da plateia e desabafa).

Ester – UÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁAÁ! UÁÁÁÁÁÁAÁÁÁÁÁÁÁÁAÁ! UÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁA!

Personagem 2, conhecida por tia-avó – Há tempo para um aparte que da didascália só partilha os dois a’s? Em situações de aperto, quantos de vós usais a palavra “acudam”? Qual a razão para o quase falecimento da expressão? Escusado será dizer que o exercício requer a concisão, rigor. E tolerância pela opinião de cada um. No meu caso, remonta há quatro dias: na altura em que contemplava o sunset num barco sobre o Rio Douro e, fruto do desequilíbrio que me atirou borda fora, vociferei a palavra. Não resultou, porque todo o convés estava a coreografar e a cantar a Macarena. Ninguém me ouviu e vi-me impelida a nadar até à margem.

Personagem 1, entretanto designada por Amadeu – (abraçam-se, enquanto a mais nova esfrega o pranto e excrescência nasal nas omoplatas do mais velho. Por fim, Ester estaciona o sufoco). Tia-avó, francamente! Que atitude mais parva! A rapariga, na sua insuportável condição, apresenta-lhe o racional distintivo de uma criança com seis anos e a senhora socorre-se no público? Só faltava ter remexido no bolso e iniciado um joguinho repleto de pixéis.

(Ester exibe o recado ao irmão e aponta para a informação sublinhada. Amadeu, embora não compreendesse o fundamento daquele destaque, leu-o em voz alta.)

Personagem 1, entretanto designada por Amadeu – É uma mensagem dos familiares ainda mais próximos. Concretamente, da mãe e do pai. Diz: “Filhos, aqui está o ensinamento 38/265 – os sunsets são gratuitos e, até evidência em sinal contrário, sê-lo-ão sempre. Podem colar no frigorífico. Beijinho dos pais! P.S: Coloquem a faixa onze deste disco a rodar”.

(A Personagem 2, conhecida por tia-avó, por ser a mais velha e – teoricamente – a mais capaz, colocou o disco a girar, na faixa solicitada. O refrão da música ecoou. It’s just a sunset // Someone said // Something that happens every day // Yes, it’s a sunset // Someone said // But now they’ve found a way to make it pay.)

Personagem 2, conhecida por tia-avó – Uma mãe sebastianista não tem voto na educação dos filhos. Abandonou-os ao Fado e agora é isto. As máximas não podem ser vendidas à velocidade estonteante das resoluções de ano novo. Em minha casa, vigoram as minhas regras. Meninos, preparem-se! Temos 10 minutos para estar no cais. Vou chamar um Uber!

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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