Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
Hipoteticamente, se tivéssemos de dividir a vida em percentagens de estados de espírito anexadas a kits de emergência, com quais gostaríamos de conviver, afligir, murmurar ao ouvido ou jurar a pés juntos não co-existir outras galdérias da designação sentimental? Que termos efectuariam o check-in no navio de cada terráqueo? Que unidades linguísticas dotadas de sentido acenariam, no cais, lúgubres meneares de pulso dirigidos aos que zarpavam? Em termos regulamentares, na ausência de uma lei de bases, a balbúrdia deflagraria sem grande sacrifício, uma vez que a imprecisão técnica reinaria.
Imagine-se um cenário no qual, incorporado ao kit de sobrevivência, alguém se muniu de um estado de espírito. Abrimos o saco e, ao lado do – (1) estojo de primeiros socorros com pensos, ligaduras, compressas, fita adesiva, tesoura, pinça, alfinetes de segurança, analgésicos e desinfetantes, (2) da medicação essencial, incluindo medicação habitual, (3) dos alimentos não perecíveis, como alimentos secos ou em conserva e boiões de comida para bebé, (4) da água engarrafada (são recomendados pelo menos seis litros por pessoa), (5) do dinheiro em numerário, para quando não for possível fazer pagamentos digitais, (6) do carregador de telemóvel e powerbank (carregada) (7) das lanternas, preferivelmente recarregáveis à manivela ou a pilhas – deparámo-nos com um saquinho de mágoa ainda fresca.
Ufa! Tanta coisa. É um kit de emergência ou a proposta de bagagem para duas semanas com o David Attenborough no Botswana? Ainda há mais? Como assim? (8) De um rádio a pilhas, para obter informações em caso de falha na rede elétrica (9) das pilhas de reserva, (10) dos fósforos ou isqueiro e velas, (11) do canivete suíço, (12) do apito para chamar a atenção em caso de emergência, (13) da manta térmica, cobertor e roupa quente (14) dos artigos de higiene pessoal, (15) da ração para os animais de estimação como cães e gatos, (16) das cópias de documentos importantes (17) da checklist de evacuação, com todos os itens pessoais a levar, (18) e da lista telefónica com contactos de familiares, amigos, vizinhos e outros números importantes* – Que apreciações resultariam, caso a imagem da descrição do parágrafo anterior se vivificasse?
A ousadia de rasgar o contracto tacitamente estabelecido entre o leitor e o sedentarismo que lhe acalenta as nádegas é descarado e, consequentemente, de mau tom. A falta de chá que encerro é, na realidade, um ponto em meu desfavor. Eu conjecturo, já que me atrevi a formular a suposição: ora, a consternação também entra? E o sofrimento? E o desgosto? Abrir uma excepção para a entrada de qualquer um, a par do primeiro, induz à discriminação. Paira, ainda, outra dúvida. Por que razão esse alguém se muniria de mágoa e relegava as restantes disposições, pese embora o facto de entre todas figurar, ao nível da sinonímia, uma delgada barreira? O critério de selecção possível radicaria na subjectividade e na habitual partida de sufrágio.
Esperem um momento. Quando engendrei outro episódio desta chalaça, olvidei de esquematizar o corpo que executava a sentença. Seria um júri composto pelos miríficos linguistas portugueses? Perdão, pelos vultos destes. Não, não. Era outra entidade. Por certo. A resolução estava a cargo do poder político. Assim é que é! Leis promulgadas pelo Presidente da República e consagradas na revisão constitucional em data a definir. As mais altas instâncias tinham o dever de a fazer cumprir e tal. Era isto! Não, não. Era outra entidade, afinal. Agora é que me estou a lembrar! Esta decisão devia ser imputada às instâncias religiosas. O Antigo Testamento e o Novo Testamento servem para amanhar o peixe e expropriar-lhe as espinhas. Talvez isto seja demasiado enformado em parábola. Mas agora fica assim. O Conclave que se desenvencilhe. Mas, se der para manter o fumo branco, perfeito.
“Ah! Mas as porções de estados de espírito podem variar de um dia para o outro?”, perguntam as mentes interessadas nesta temática. Eu pertenço a uma escola de pensamento que desaprova categoricamente semelhante execução. O fanatismo nunca me assistiu e, como tal, convivo bem com a opção pela constante reformulação do kit de emergência. A conveniência agregada a esta forma de tratar o problema torna-se evidentemente e não precisa de suporte racional. O que diriam professores e mestres ilustres que tive se os alunos (e pessoas) que formaram adaptassem o conteúdo da pequena bagagem à infindável roleta da alma? Poucas são as pessoas que sentem assaz. Três, quatro, cinco, seis – no máximo – emoções por cabeça e já convocamos o exagero, creio. Além disso, fica mais difícil em termos de divisão: jogamos com um bolo de 100% (caso contrário, a percentagem morria) e tudo o que galgue a barreira do seis peia a conjugação de todos os estados de espírito a inserir no kit de emergência. Como já vimos, a calculadora está fora desta lista.
Solicito ao leitor, se possível, um segundo exercício de concepção mental com a promessa de ser a última vez este ano que o sujeito a tal incumbência: resgate o Alekseiyi Ivanovitch que existe no seu âmago, posicione-se no casino de Vauxhall e deixe que o croupier labore. A minha proposta radica no seguinte: os espaços da roleta devidamente numerados eram substituídos por 36 estados de alma e, durante 100 jogadas (para quê diversificar?), assinalavam-se numa folha de papel os resultados das apostas que efectuássemos; analisada a situação, escolheríamos os cinco com maior frequência. Encontrados, finalizaríamos a lista e ocuparíamos o tempo livre com outros assuntos.
Sem me dar conta, a discorrer sobre o tema, projectei outro método capaz de contribuir para a selecção de mais um dos elementos do kit de emergência. É mesmo como dizem: a escrever, as ideias fluem de outra maneira e, nelas, esbarram outras, iguais ou melhores.
Na roleta, ao vermelho e preto, acresce a cor verde. Pressupondo que toda a gente tenha conhecimento de que, eventualmente, finará, que palavrinha poderia colocar naquele cubículo?
*Kit de emergência veiculado ao site do Continente
Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.
Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação