OPINIÃO: O fanho e a fúria – do nariz ao céu da boca

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Atchim. Atchim. Atchim. Três espirros de uma assentada, consignados a um imóvel de uma assoalhada. Se a composição resvalasse no verso, o poema naufragaria em rima emparelhada. Aborrecida, entorpecida. De tanto emparelhar, encruzilhei. O espirro tornou-se labiríntico, encoberto. Dissimulado, espreita pela frincha das fossas nasais e, assim que pressente o ardil do dono daquele espaço em contê-lo, acocora-se. A exactidão e a pontualidade, predicados deste demónio da comichão do décimo de segundo, arrastam o peso e debruçam-se sobre a mucosa nasal, irritando-a.

Em certas ocasiões, o reflexo involuntário bem tenta relacionar-se e cortejar a mucosa, – uma de cada vez que ele nunca deu para fraldiqueiro – mas frases como “ó femeeiro, vê lá se, ao invés de exibires os gadachins, te restam somente os sabugos”, “o aniversário do rei foi há 17 minutos e eu não transijo a alarvidade” e “se souberes manusear um cigarro à la Clint Eastwood em For a Few Dollars e, a tal comportamento, submeteres doutrinas que viajaram da verve, eu volto a despir-me”. A palavra vale o que vale e será, sempre, a minha por oposição à da mucosa. Eu escutei tal ordem silábica. Juramento de escuteiro. Sem bandeiras, porque algumas organizações políticas desirmanam com a exibição. Outras, por sua vez, excomungam a sua sonegação.

No último fim de semana, o fanho zurziu-me, com força. Sem piedade, à revelia dos escritos sagrados. A chibata teve ressonância nasal e inundou-me um mar de ditongos. Logo a mim, que nunca fui muito à bola com sequências de vogais. O congestionamento das vias introduziu-me ao delírio e as duas estacas que escoravam os maxilares trataram de auxiliar a minha fala. As depreciadas embalagens de lenços de papel, agastadas pelo fadário, tiraram bilhete de ida para o caixote do lixo, domingo passado. A volta nem vê-la. Neste burgo, as compras semanais são efectuadas todos os sábados e, como podem ter depreendido, material de assoo consta da lista das dezenas de productos a figurar neste conjunto de assoalhadas.

(Ainda bem que voltei a este assunto. Queria informar o leitor acerca do sucedido: com base no website do Imovirtual e de acordo com lavra de 2021, “a utilização da palavra assoalhadas não reflete necessariamente o número de quartos de dormir. O termo exclui da equação, desde logo, a cozinha e casa de banho, contabilizando os outros espaços disponíveis. Como tal, duas assoalhadas não são necessariamente dois quartos, mas antes uma sala e um quarto. Três assoalhadas designam uma sala de estar e dois quartos, e assim subsequentemente”). O dever moral fala sempre mais alto e, como tal, o código ético enviou-me um sinal de fumo. Imperava esclarecer o leitor quanto à designação de “assoalhada”. Alguém tem de vir a público dizer as verdades. Senão, pertencemos todos ao mesmo rebanho. E, para acusações deducionais a tal “afronta”, aconselho a arregimentar a petulância onde o sol não brilha.

A ronda do cabaz alimentar e súcias afins – antes fosse dos paisanos – concretizada pelos autores que governam a habitação é conhecida pelos familiares e amigos mais próximos: Mercadona, seguido de Continente e Lidl. “O pão é melhor no Lidl, a água é mais barata no Continente, os iogurtes naturais do Mercadona são de bradar aos céus”. Coloco sérias dúvidas quanto à parca composição dos cientes da rota pelo facto de esta se repetir há anos. E, nos dias referidos, reuni outra prova que atesta a minha crença: o decoro e o pânico causado pelo mirar de soslaio do círculo social – de diâmetro e circunferência variáveis – vexou o regresso de meu pai e minha mãe a uma das superfícies comerciais mencionadas. Precisar o estabelecimento ao qual corresponde a melhor relação qualidade-preço dos lenços de papel escapou-me. Mas a humilhação perdurou. Como se fossem eles as vítimas da carranha e, de repente, expelissem ranho verde a tender para o castanho.

Erroneamente, os conselhos no sentido de instar à usurpação da sinalética de trabalhos na via – prática comum entre universitários que vingam na copofonia – jamais me foram concedidos. Na faculdade, o futuro extingue-se em cerveja, saídas nocturnas e latas de atum. Com perspectiva assente no porvir, teria antevisto tal situação e, consequentemente, sinalizado as paredes que confinam o reduto onde repouso. Agora, estou impedido de isolar o meu quarto com aquela fita amarela e com aquela placa que alerta para o piso escorregadio. Os destroços de papel remanescentes obliteram a presença de visitas, mas o efeito perde-se. A parte exterior do nariz – perto da cana – tem descamado a bom ritmo e as peles que fazem dele colete salva-vidas assemelham-se a resquícios de farinha que se agarraram àquela zona. A minha mãe quis incluir-me na confecção de um bolo. Qual é o problema? Se de cocaína se tratasse, eu admitiria. Sem problema. Todavia, parece-me implausível que, mesmo o mais principiante dos elementos, seguisse a risca e, parte dela, tentasse trepar alguns andares.

A escassos dias da Páscoa, o vislumbre de recuperação total nem miragem constitui. Mais do que em qualquer momento da História, conhecer o corpo e os limites associados é fundamental. Algo me diz que o facto de a expectoração, os espirros e o aço que acorrenta a minha boa disposição administrarem, de forma tripartida, as minhas vísceras, irá acelerar um possível desastre na enésima visita de Jesus. Por cá, caso seja conservada a tradição de deglutição da hóstia, o menino afeiçoar-se-á ao céu da boca e quererá, por certo, brincar com ele o máximo de tempo possível. As competências, face à condição achacada e enferma, situam-se furos abaixo do habitual. Com a língua para lá de estafada, socorrer o espécimen de bolacha do olimpo bocal será um milagre.

Provavelmente, Caddy – a irmã promíscua e adúltera de Benjy, Jason e Quentin – ficou, desde cedo, apartada deste ritual. William Faulkner nunca esclareceu o leitor acerca de episódios que misturavam viroses, gripes e camiões de fanho.

Num rasgo de lucidez, enxergo que omiti involuntariamente da lista de efemérides o Dia do Pai. Atchim. Atchim. Atchim.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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