OPINIÃO: O que fizemos à nossa vontade?

Margarida Cardoso

O que fizemos com a nossa vontade de ser mais do que um empregado das nove às cinco? Ter mais do que uma vida rotineira, reta e plana. Que fizemos aos nossos planos de furar o sistema, de ser o um em um milhão? Que fizemos ao tão nosso instinto “eu vou ser diferente”? Que fizemos aos nossos sonhos?

Hoje corremos para o emprego. Enchemos o depósito todas as semanas e o carrinho de compras no maior supermercado que encontramos. Vamos ao mesmo café todos os dias, igual a tantos os outros em cada esquina das nossas capitais. Hoje comemos plástico, vestimos plástico, até nos tornarmos nós mesmo nisso: pequenos pedaços de plástico, iguais uns aos outros, com as mesmas etiquetas, apenas com embalagem um pouco diferente. Mas somos todos da mesma gama, na mesma prateleira, no mesmo supermercado. Produtos de plásticos propriamente produzidos em massa.

É só mais um dia: é fácil convencermo-nos. Cremos que vai aparecer uma ideia brilhantemente mudadora de vida que nos vai tirar desta rotina estúpida de funcionários dos outros ou da exploração daquele chefe para quem a qualidade de vida representa trabalhar 12 horas.

Há uns dias ouvi numa palestra uma teoria inquietante: “o nosso tempo é deles”. Deles dos patrões, dos chefes, dos superiores que vão sempre existir por mais alto que cheguemos. Revoltou-me tanto esta ideia. Revoltou-me tanto por ser tão verdade. Pelos menos [para quem tem sorte], oito horas do nosso dia são deles. Mais as horas que passamos a pensar, preparar e arreliar o nosso pequeno cérebro com o trabalho que fazemos, o que não fazemos, o que temos que fazer, o que devíamos ter feito. O que eles querem de nós. Mais os óculos, os comprimidos e as bolas anti-stress que vêm atrelados.

Trabalhamos demasiadas horas? Talvez. O real problema não está no horário, mas na continuidade destas horas. Para nós, o trabalho é interminável. O trabalho é a nossa vida. Repetimo-lo em crónicas, artigos de opinião e estudos. Mas nunca nos apercebemos do quão degradante esta frase é. É o reflexo do nosso conformismo, da nossa pobreza de espírito, da nossa podridão de liberdade. É o nosso pulsar capitalista que nos esmaga contra a parede, como se não tivéssemos a opção de empurrar de volta.

Não sou anarquista, nem preguiçosa e também faço muitas horas extra, ainda que no estágio. Este texto também para mim – é muito para mim. Este texto não ajuda em nada, só serve para inquietar, levantar questões, tentar despertar alguma consciência que ainda possa existir por baixo de uma camada de pele morta e dormência que nos caracteriza. Acordados?

Que fizemos aos nossos sonhos? Que fizemos ao nosso tempo? Quando deixamos que o nosso tempo fosse todos deles?

Margarida Cardoso, estudante de Ciências da Comunicação da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, vice-diretora do Jornal Universitário do Porto

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

error: Este conteúdo está protegido!!!