OPINIÃO: O Porto perde mais um brinquedo

Henrique Meneses Cardoso, 28 anos, Coordenador adjunto do Gabinete de Estudos da Distrital do Porto da Juventude Popular

É da praxe ver os grandes eventos a rumar ao sul, sobretudo, para Lisboa, umas vezes por causa da incompetência de líderes autárquicos, outras vezes, por ganância do centralismo.

Falo hoje do maior evento de cultura pop do país, a Comic Con, que, desde 2014, realiza-se na Exponor, em Leça da Palmeira, e que, a partir de 2018, passará a realizar-se em Lisboa.

Comic Con Portugal ganhou este ano um novo parceiro, a Great Global Events e nas palavras do seu CEO, Paulo Santos, esta é “uma mudança natural”.  Este CEO acrescenta ainda que, “tem a ver com a maturidade ganha pela própria organização ao fazer o evento e com os fatores estruturais. Ao realizarmos este evento em Lisboa criamos uma ponte mais rápida para chegar a espanhóis e outros europeus que queiram vir fazer parte desta festa”.

Perante esta situação, diria que não se trata apenas de uma mudança natural, mas sim de uma prática obscenamente reiterada que desvaloriza Portugal, os portugueses e o seu território.

As palavras deste CEO demonstram, desde logo, o grave problema da coesão territorial do nosso país que contrasta com as palavras ocas de um governo “supostamente” descentralizador.

Vivemos, assim, numa região que não consegue rever-se na cosmopolitização da sua capital, porque o Estado não cria os meios necessários para a harmonização do desenvolvimento territorial.

O país assemelha-se, por isso, a uma marca de brinquedos, em que o Grande Porto representa o pequeno laboratório onde se testam os brinquedos e a Grande Lisboa, a loja comercial da marca “Portugal”.

Inicialmente e geralmente, estes brinquedos têm de ser criados por uma entidade externa ao Estado, para que, seguidamente, seja possível ao laboratório testá-los.

Realizada a criação do brinquedo, o mesmo é depositado nesse laboratório, onde os engenhosos portuenses com o seu espírito dinâmico e criativo dão-lhe o animus. Posteriormente, esse brinquedo é ligeiramente publicitado para ser, então, testado pelas cobaias.

Ora, é neste momento que a grande loja comercial lisboeta foca as suas atenções no pequeno laboratório. Se este brinquedo for bem aceite pelas cobaias locais, o brinquedo continua no laboratório para que possa amadurecer e ser aprimorado. Mas, se o brinquedo conseguir uma aceitação alargada às cobaias internacionais, aí a grande loja apodera-se brutalmente do brinquedo, regista-lhe a marca “Portugal” e distribui para o resto do mundo.

Por vezes, acontece que o brinquedo não tem tanto sucesso na grande loja comercial, como tinha no pequeno laboratório, o que acaba por incomodar um pouco os criadores e até as próprias cobaias.

Exemplo deste desastre de marketing é o caso dos brinquedos da Redbull Air Race, que se viram obrigados a regressar ao laboratório porque, na loja comercial, não tiveram o mesmo sucesso.

Surge, então, a questão: e o resto do país, o que é que faz? Ora, o resto do país senta-se em frente à televisão a ver a guerra da descentralização entre o pequeno laboratório e a grande loja comercial, enquanto decide onde irá adquirir o novo brinquedo.

Neste sentido e não querendo reclamar já, pela independência de Lisboa e Porto do resto do país, acredito que a descentralização deve começar por algo bem mais simples do que candidaturas a agências europeias.

Deve começar sim, pela criação das mesmas oportunidades para todo o território português. Não por uma simples divisão dicotómica em que, primeiramente, se encontra Lisboa e só de forma secundária e provisória se encontrará o Porto.

A ser verdade que estruturalmente o Grande Porto não tem a referida capacidade para desenvolver um evento ao nível pretendido, o governo, enquanto apologista da descentralização, deveria ponderar as palavras de Paulo Santos e refletir sobre o que realmente está errado na Exponor, em Leça da Palmeira e nos seus arredores.

Deste modo, a solução não passaria por deslocar o evento para Lisboa, mas antes, por criar as condições para que esse e outros eventos da mesma amplitude se possam ali realizar.

Por outro lado, a ponte que liga Lisboa a outros pontos da Europa e até do mundo, não deve ser de tal forma diferenciada que comprometa o desenvolvimento sustentável das diferentes regiões do território português.

Quem nasce em Viana do Castelo, Bragança, Coimbra ou Évora, por vezes, sente-se tão ou mais afastado destes eventos quanto uma pessoa que vive em Madrid ou em Moscovo, porque a ponte que se realiza do mundo para Lisboa e daqui para o Porto, não parece fazer ligação com o resto de Portugal.

São estas diferenças de território e de portugueses (de primeira, segunda e terceira) que se devem colmatar com uma igualdade no acesso às diferentes oportunidades, seja ao nível estrutural, profissional, educacional, ou até cultural.

Só assim poderemos afirmar ao resto do mundo que o nosso país é realmente desenvolvido e não apenas a sua capital, que se encontra assessorada por uma cidade secundária. Infelizmente, hoje ainda se cumpre o velho ensinamento de que “Lisboa é Portugal, o resto é paisagem”.

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