Tudo o quanto me resta é um cerne acumulado de apontamentos e objetivos fartos em manchas de papel perdido pela lixeira da consciência. Das janelas do meu quarto não vejo nada mais que mais janelas, mais janelas que para nada dão a não ser – mais janelas. Neste paradoxo todas as janelas do mundo se refletem numa abismal tristeza e constante rodopiar das saias da ventania que por aqui vai.
Todos espreitam por detrás dos tecidos encarnados em gorduroso sebo de mil jantares e dois mil almoços, que se vai lavando e gastando a cor. Permanece um perseverante mistério, de onde vem esta luz solar, esta luz do dia que não atravessa as cortinas pelas quais todos enfiam a vista e que nada sabem para além da marca do carro e quanto mais umas rotineiras saídas. É para quanto dá a memória.
Dos que habitam sozinhos há uma determinada lucidez, como se para a morte se inclinassem (ou pelo menos para a razão de tal). E depois perdem-se em pensamento mais leves. A tabacaria ao fundo da rua aguarda-me como mais um dos habitantes da terra sem lealdade às margens que atravesso. Ainda assim a preguiça habita em mim como um carrapato que não sabe ao certo para onde se virar, sugando o sangue de réstia abécula a mirar os pedestres e a chorar-lhes os chocolates sem metafísica, de crianças ou papel de estanho empobrecido… enfim, o mais provável é que a minha tabacaria esteja fechada.
Tanto potencial para as canetas e para as folhas dos cadernos pesados “que o menino carrega” que um dia a vadiagem do homem os mata de espanto. É a marginalidade da caligrafia que me trai, porque escrevo tudo a computador e a dada altura ainda me atrevo a imprimir em série – com a dignidade de um desgraçado que passeia por Braga (de um Sebastião Alba ou de um Luiz Pacheco perdido), não a desses lastimáveis que compram as próprias tiragens e impingem ao círculo, com a simpatia de um vendedor à pressão. Assim como a cerveja mal tirada, o peito é mais espuma que outra coisa.
E hoje não se entra na tabacaria da esquina, por nenhum lado das margens, porque o fim de semana fez ponte e os trabalhadores migraram para as miniférias de cinco dias. Não há poetas marginais ou malditos em segredos dos deuses a pensar num hipotético casamento com a filha da lavadeira. Todos são poetas, todos são fingidores sem metafísica, e ainda assim, nenhum leva consigo o segredo – o mito – o mistério. Praguejam na praça pública em voz alta, trajes ridículos e progridem na visão malograda de infantes enfáticos.
São 132 anos desde o nascimento do poeta Fernando Pessoa. A “Tabacaria”, poema em que me inspirei para escrever esta quase meia dúzia de parágrafos, foi o primeiro poema pelo qual me apaixonei. Deveria ter os meus catorze anos quando o li. Desde então há em mim um certo desassossego na poesia, que me vem inspirando como um motor, um constante borbulhar de peripécias de inspiração.
O âmago do quotidiano urbano com a poética metafísica da filosofia.