OPINIÃO: Levantar cedo e cedo erguer

Ana Marques, 21 anos, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Pitada de Pimenta

São horas!, são horas!, grita, sistematicamente, a sincronia esbaforida de um despertador, em cima da mesa de cabeceira, ecoando pelo cubículo, para desgosto de quem está por acordar, levantar e regressar à vida matutina.

O gato espreita reconhecendo que o caminho está livre de possível afugentar, entrando quarto adentro. Tendo por hábito assaltar a cama do ensonado, ou da ensonada, cai o Carmo e a Trindade com tal etiqueta, pois que tal pequeno ser deste mundo desfila, elegantemente, de pelo impecável e suave, capaz de fazer estremecer invejas aos lençóis. Repare: uma das personagens deste contar, costuma afirmar que o pelo do animal em foco é ainda mais suave ao toque, aprazível, pela manhã escura – e eu confirmo-o.

Adiante, antes que as figuras se varram de nossos olhos!

E lá vai ele, o ardil felino, sarapantado, embora muito curioso – se não o fosse estaria a representar mal a sua espécie – lançar os seus carinhos, que são nada mais, nada menos, que esbarrar o focinho contra os braços do adormecido. Lá se mexe, remexe e, vendo que ligeiro esfregar de dedos pelos olhos significa «Quase em pé, quase acordado», o gato sai da cama e dirige-se aos chinelos que estão no tapete, onde escarafuncha a fundo. Haja tamanho gosto – e peculiar, diga-se – para se estar a cheirar, espreguiçar e brincar em chinelos mal amanhados; haja essa sumptuosa disposição para se roçar neles e achar por bem que eles são o arquétipo da brincadeira para gatos. Já há muito que os novelos de lã foram deixados de parte, há que ter olho no mercado. E, olhe, já não se fazem gatos como o antigamente…

Torno a reparar no vulto do corpo deitado, ainda se treme da fraca capacidade de contornar o sono e mandá-lo ir dar uma volta ao bilhar grande.

Bastou esta miragem fugaz e desconcertante por parte do narrador, que ele também tem destas coisas sem se dar conta, para que perdesse a transformação ativa e repentina do gato brincalhão com chinelos, para o gato que faz splahshs com a língua, enquanto lambe a barriga de ócio. O raio do gato – deve, pois, ter sentido o mau olhado, que eles são astutos, mas só quando querem e bem lhes apetece – ao sentir-se observado, quedou-se estático, como que a lançar, desta vez, o seu mau olhado. Bastou o estatuar por segundos para regressar à sua limpeza sanitário-pessoal.

Com um bichanar próprio de narrador, o gato encara-me, cercando-me de imediato as pernas com a sua pelagem. Passo-lhe a minha mão, ouve-se o consolo. A sinfonia gritante deixou de bradar, talvez se tenha apercebido que os pulmões estão exauridos. Estas rotinas já estão cansadas, tal como esses pulmões irritantes. Chamo o adormecido, ele lança-me o rosnar num «Hummm?», misturado com rabugice da grossa, e, como se estivesse estado a refletir metade da vida antes de se levantar, mexe-se num ímpeto e sai dos lençóis.

São cinco horas. Horas para um certo levantar, só. Atenção a estas palavras. Com isto – isto é, este contar – poderemos retirar diversas coisas, sendo uma delas a de que os gatos são seres estranhos. Oh, mas isso toda a gente já sabia, não é? As outras, as outras coisas, ficam por dizer, nunca por interpretar.

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