OPINIÃO: Fala-se muito

Herman José Ribeiro

Samuel Johnson, no seu livro Páginas Escolhidas, a determinada altura do texto Sobre a Teoria e a Prática, diz o seguinte: «há muito que os monarcas orientais têm por hábito esconder-se em jardins e palácios, a fim de evitar a humanidade». O que me interessa nesta frase é o seu final «evitar a humanidade». Perco demasiado tempo em volta desse tema. Tempo esse que poderia desperdiçá-lo na descoberta do responsável da moda de máscaras cirúrgicas penduradas no retrovisor do carro. Ainda em relação à humanidade, tento evitá-la na medida do possível até por razões de saúde.

No livro do Desassossego, Bernardo Soares escreve que «a literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida», ou seja, de esquecer a humanidade. Eu acrescento a serenata de Schubert e a masturbação. Então se forem as três ao mesmo tempo ninguém me vê durante dias.

Isto tudo para dizer que sempre que posso fujo da vida, no geral, das pessoas, em particular. As pessoas quando me encontram, seja em que local for, têm a tendência de me confundirem com alguém disponível para aturá-las. Não conseguem ficar pelo cumprimento. Há uma certa urgência em partilhar coisas. Começam logo a descarregar em barda meio decénio de vida privada.

No filme de Jim Jarmusch, Paterson, há um personagem chamado Donny, decorrente na história – e que ilustra muito bem esta problemática –, que quando lhe fazem a simples pergunta «está tudo bem?» (entende-se a pergunta quase como forma retórica de conversa de circunstância) ele vomita exaustivamente todos os seus problemas. Ora, melhor exemplo há para descrever o mundo atual do que Donny? E é aí que reside a minha cólera. As pessoas devem conseguir aguentar com firmeza a vida que têm e os acontecimentos que lhes surgem. Ou então optam por escrever um diário. Sinto que ninguém se importa com a privacidade. Na sociedade hodierna já temos pouca, e mesmo assim desperdiçámo-la. É perturbante.

Por essas razões é que não gosto muito de sair de casa. O que eu aprecio mesmo é ficar no domicílio a ler, isto é, a desaparecer da vida. Por exemplo, quando estava a escrever-vos isto, desapareci para uma certa aldeia da Mancha de cujo nome não me lembro. E estava-se tão bem lá que deixei a crónica a mei


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: Puta de Filosofia, de Carlos Alberto Machado
Esta curta-metragem: Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel

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