OPINIÃO: Os estudantes estão sempre a embirrar com tudo

Herman José Ribeiro

Eis que se não quando chego à décima quinta crónica no jornal sem qualquer tipo de peita às mais altas diretrizes. Confesso que nunca imaginei passar além das três. Mas sinto que a razão pela qual os editores mais fleumáticos me toleram é muito devido ao meu corpo. Tenho plena consciência que se me desmazelasse um bocadinho que seja na evolução dos meus trapézios a minha atividade no jornal tinha os dias contados. E com muita razão. Quanto a mim, para dispor do direito a escrever num jornal, o escrevente deveria possuir dois requisitos: um corpo deleitoso e grande à-vontade com a cultura suméria. E isto devia de estar inscrito algures em todas as entradas das sedes dos jornais. Assim como era requisito obrigatório o domínio da matemática na academia de Platão.

Este contentamento todo perante a décima quinta crónica, na mesma semana em que, sem que nada previsse, acabaria, à luz da madrugada, num hospital veterinário. Não é que comecei a sentir um ratito no estômago. Estou a brincar. A causa não foi relativa a qualquer imundo camundongo, mas sim a minha gata ter contraído um abscesso no olho esquerdo. Acabou por ficar internada e parecida com o Henrique Raposo do CDS. Ao menos tem onde dormir. Há por aí muito estudante que nem nos provadores da Bershka podem bater um soninho. (Repararam nesta transição de tema? Não é vertiginoso o meu talento?)

Com o ano letivo do ensino superior prestes a começar, muitos dos estudantes já andam à procura de quarto, ou de casas se estiverem a pensar em levar a família toda. Da maneira que isto está, pôr um filho a estudar numa universidade é o equivalente a meter dinheiro no Novo Banco.

Já não vale a pena mandar um filho para a universidade: para quê se os hipermercados já chegaram a todo o lado. Ainda para mais se os filhos mostrarem inclinação para as artes. É um investimento doloroso sem qualquer tipo de retorno senão uma mediana imitação da Irene a Patroa Irene a Costureira. Se, por acaso, os vossos filhos optarem por filosofia, evitem as perguntas. Arranjem-lhe um part-time num escritório de advogados.

O problema da escassez de quartos é o mesmo problema que existe na habitação em Portugal – preços excessivamente altos e residências insuficientes. Só que desta vez face à anormalidade hodierna impõe-se um corte de um terço no alojamento estatal. Resultado: há mais estudantes a procurarem habitações. Para os bolseiros – esses grandes gatsby’s do mundo estudantil –, sem lugar nas residências, será atribuído um astronómico complemento de alojamento no valor de 170 euros. O que permitirá reunirem-se em grupos de 20 e alugarem um T1 a dividir por todos. E ainda sobra para os jantares de curso. Do que se queixam? Acho que os estudantes estão a ficar cada vez mais exigentes. Só falta começarem a reivindicar melhores condições estruturais e água quente. Digam-me lá: se não for agora a viver numa cozinha transformada em quarto com cheiro a balneário, vai ser quando? É que depois da universidade é um pulo até à reforma. Não sejam embirrentos, colaborem. Ou isso, ou Sonae.


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: De Olhos Fixos no Sol, Irvin D. Yalom
Este documentário: O Dilema das Redes Sociais, Netflix

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