OPINIÃO: Nesta altura, se

Romão Rodrigues, 19 anos, Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Nesta altura, se Woody Allen não tivesse sido iluminado pela brilhante ideia de realizar e dirigir Manhattan, a (minha) massa densamente cinzenta permanecia envolta nos inúmeros cruzamentos da desagregação e mutabilidade do amor. Agora, continua acercada só de muitos. A casualidade do fervilho é tão ou mais transparente do que a vontade de cometer uma infração inscrita no código da cordura humana, aquando do deparo com Yale Pollack.

Nesta altura, se há coisa de poucas horas não findasse o Cidade e as Serras, que argumento era digladiado na defesa do (ainda reduzido) conhecimento da magia da prosa de Eça – Gabriel García Márquez não se importará, certamente, que retire magia ao seu realismo – e no desmontar de uma dicotomia rural/urbano, pontificada ora por veleidades, ora por árdua labuta? Tanto o programa de Língua Portuguesa do 11.º ano como a Mixórdia de Temáticas produzem sucessivos laivos de insuficiência.

Nesta altura, se Miguel Esteves Cardoso triunfasse nas eleições de 1774 pelo ainda irreverente Partido Popular Monárquico (PPM), Portugal sofria um dos maiores desfalques na equipa de cronistas hábil no adorno de construções textuais com cortinas de humor e tapetes de ironia felpuda e acocorava-se a uma nova invasão territorial, consumada por alguém no cume de desespero e desfaçatez face a uma multiplicidade de fatores com origem – no meu ver – no modo como se injeta capital em bancos. A fundo perdido.

Nesta altura, se os pais de Bernardo Fachada não delineassem – com requintado traço – o coito e a conceção futura de um dos maiores artistas lusos, dir-se-ia necessariamente o quê sobre a fertilidade da música portuguesa, versão Flor Caveira? O mesmo se pode inquirir sobre os progenitores de Samuel Úria e Jorge Cruz. Conceber assim não custa, pelo contrário. Um mundo sem uma destas personagens não era viável e os seis responsáveis sabiam-no.

Nesta altura, se a promiscuidade entre a política e o futebol fosse sancionada com severas – aquelas que chegam a prender durante alguns anos e a afastar de uma vez dos cargos anteriores e tal – punições, quantos dirigentes/assessores/braços direitos e esquerdos podiam coexistir na mesma cela com o simples intento de formar duplas para que a Sueca ocupasse os tempos livres? Aliás, com alguma complacência e avisando os guardas previamente, autorizavam-se as renúncias.

Nesta altura, se um clichê não qualificasse a vulgaridade de algo ou alguém, qualificaria o quê necessariamente? Se eu não abordasse esta preocupação – que é de todos – aqui e agora, quem abordaria? E se o clichê não quiser ser abordado por mim ou por outro comum qualquer? E se este parágrafo sobre o termo se tornar no termo propriamente dito, à medida que os olhos executam o movimento corrido? E se neste mundo só estivermos de passagem? E se não existir missão individual? (Eu reli o texto e tenho a sensação de o clichê estar algures por aqui).

Nesta altura, se o Papa Francisco tivesse defendido a união de facto entre homossexuais, qual seria a posição da restante comitiva religiosa? (Alto! Não era nada disto que queria dizer…).

Nesta altura, existe algo que pode ser extraído desta piroseira das suposições: se eu não sinalizasse a minha presença no Planeta Terra e redigisse este texto, que razões subsistiam para prática do insulto gratuito na minha direção?

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