Numa das páginas da grande obra “Viagem ao Fim da Noite” de Louis-Ferdinand Céline, o protagonista queixa-se de um problema que se calhar algumas pessoas já sofreram: “Eu tinha um focinho embirrento, era o que era.” Queixa-se disto durante uma viagem de barco onde todos os passageiros a bordo o queriam agredir, atirar borda fora ou matar pela simples razão de que embirraram com a cara dela. Nunca falaram com o protagonista e este cada vez menos apareceu em locais públicos. Escondia-se no seu quarto, saltava refeições e até evitava usar a casa-de-banho.
No parágrafo seguinte explica que todos estavam desocupados e fechados em si devido ao tamanho da viagem que já somava trinta dias. Prossegue com uma reflexão social interessante: “Aliás, se pensarmos bem, só num dia dos mais vulgares cem indivíduos, pelo menos, desejam a nossa pobre morte, por exemplo todos os que aborrecemos, comprimidos atrás de nós na bicha do metro, ou os que passam à frente do nosso apartamento e não têm nenhum, todos os que desejariam que tivéssemos acabado de fazer chichi para fazerem o mesmo, até os nossos filhos e muitos outros. É um nunca acabar. Habituamo-nos. No barco este aperto é mais visível, por isso mais irritante.”
Ora, neste confinamento não me sinto muito diferente da personagem semi-auto-biográfica de Céline, num barco onde o aperto visível vai piorando, dando de caras com as mesmas pessoas, mesmas coisas, mesmas rotinas… um cenário cáustico. E acredito que o problema não se estenda somente a mim. Apesar do convívio social estar limitado, estamos em constante conexão social através das redes socais e aí é que se revela o verdadeiro “barco apertado” que Céline descreve.
Como os acontecimentos que poderiam trazer novidades ao quotidiano foram suspensos, os passageiros das redes sociais aprumam todos o mesmo comportamento, em horda. Os mesmos problemas, as mesmas excitações, as mesmas partilhas (este fez anos…, hoje celebra-se a data da morte daquele…, roubaram o meu clube…, outfit of the day…, o que comi ao pequeno almoço…, este versos de um poema cujo autor desconheço e que nunca mais lerei mas vou partilhar porque me identifico muito com a situação em causa ainda que desconheça completamente o contexto mas fica esteticamente bonito partilhar…), as mesmas conversas, etc.
No fundo nada se repete porque nem sequer há conteúdo suficiente para a repetição. É antes uma certa pasta amórfica que se dispõe constantemente sempre esperando… esperando… esperando alguma coisa que nunca mais chega: a terra. O porto onde o barco vai atracar e cada um destes passageiros vai à sua vida desentupindo as características ensimesmadas gerais da insónia coletiva.
Até lá temos duas hipótese, estar do lado dos passageiros embirrando com os focinhos de outrem, desejando a morte do protagonista, (aliando-se assim numa conspiração para passar o tempo enfadonho), ou estar do lado do protagonista com focinho embirrento que se escapa furtivamente a todos saltando refeições.
Eventualmente os passageiros deitam-lhe a mão, mas através da retórica barata salva-se e vão todos beber um copo esquecendo a conspiração. Exceto o homem às portas da morte que foge o mais rapidamente possível para o porto encontrando outro inferno, mas isso fica para os que lerem a “Viagem ao Fim da Noite”.
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