OPINIÃO: ler ou não ler, eis a questão

Eu gosto de escrever, mas não gosto de ler. Se gostasse de ler não me era interessante escrever, pois não sentiria o que todos sentem quando escrevem e não leem – a pura genialidade.

A escrita quando escrita não magoa, não fere, não constrange, não aleija, apenas quando lida e interpretada. A caixa de pandora é definitivamente a leitura. Não se consta que guerra alguma se tenha deflagrado por causa de textos escritos, porém é certo que guerras sangrentas resultaram de textos lidos.

O problema de Deus, por exemplo, não está na Bíblia, mas nas leituras que se fizeram dela. Porque o perigo da leitura é a leitura e consequentemente a interpretação. O nosso mito fundador é bastante claro: a razão da expulsão de Adão e Eva do Paraíso dá-se não quando Eva come a maçã mas quando Eva se interroga sobre a razão de não poder comer a maçã: «Espera lá, o que é que Ele quis dizer com aquilo?». O resto é deus ex machina.

O mal desta geração é a leitura de livros. O INEI (Instituto Nacional de Estatística de Instagram) revelou há pouco tempo números curiosos, em cada dez jovens portugueses, dez leem. Numa entrevista recente a um jovem, conhecido no instagram por ler os livros mais coloridos da Editorial Presença, ele confessa que “ler é, tipo, muito difícil, mas não é só ler, tipo, as pessoas não pensem que é só ler, mas, tipo, temos de gastar dinheiro a comprar os livros, tipo, fotografar os livros, tipo, como prova de ter lido os livros e, tipo, publicar as fotos, tipo, não vão as pessoas achar que a gente, tipo, não lê, tipo”. Imagino a árdua tarefa deste jovem leitor em despender, no fim do dia, ainda cinco minutos para ler, por exemplo, o Guerra e Paz que, como sabem todos os que leem em cinco minutos o Guerra e Paz, tem que ver com a Rússia.

Todas as crónicas que escrevi até hoje jamais seriam tão boas se eu alguma vez me envolvesse em leituras. Se o leitor não percebe o quão esta crónica está extraordinariamente bem escrita é porque o leitor tem de começar a ler menos, e dessa maneira dou por acabada a crónica, a ver se o leitor – finalmente –aprende alguma coisa.


Nótula em jeito de recomendação:

Este livro: Ficar na Cama e Outros Ensaios, G.K. Chesterton
Este filme: Tudo Pelo Vosso Bem, J. Blakeson – Netflix

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