OPINIÃO: Três notas breves sobre o Natal ou sinónimo

1) Ora, o Natal. As luzes acendem-se em novembro. Por vezes, logo a abrir a discoteca, mas acaba por ser chato, pois aí nem música se escuta para tentar abanar o capacete. As luzes deviam fazer-se acompanhar sempre – sublinhem com marcador fluorescente a ideia – de música. Cá em casa, as luzes não pendem sobre varanda (ou a tentam escalar, conforme a perspetiva). Nem luzes nem Pais Natais. Afinal, a noção intuída pelas crianças ao fim de alguns anos converteu-se automaticamente numa ameaça. Os adultos também se podem baralhar, garanto-vos.

– Corre o mês de dezembro, não é verdade? – pergunto aos meus botões.

– Obviamente! Caso contrário, a época natalícia não seria aludida. – respondem eles. Os meus botões são constantemente crucificados. Esbofeteados, até. Especialmente nesta altura do ano. Já utilizei “Natal”, “mês de dezembro” e “época natalícia”, já falei de luzes em barda. Os sinónimos são tão parcos agora. Reparem que utilizei “agora”. O sumiço de ideias está patente e é sintomático. A Palavra do Ano, iniciativa da Porto Editora, até constitui um pensamento materializado com a sua graça e tal. A minha escolha recaiu sobre a palavra “Resiliência”. Precisamente pela quantidade de Pais Natais nas janelas e varandas.

2) Ora, o Natal. Por cá, a comitiva do Menino Jesus deglute um prato com o qual não dá para acrescentar laivos de gourmet ou haute cuisine: batatas, bacalhau (não digo que o paloco nunca tivesse constado em cima da mesa minuciosamente decorada), cenoura, hortaliça (com e sem troço) e ovo cozido. Relativamente à hortaliça, sempre me assenhoreei de algumas dúvidas: será que, afinal de contas, o que eu como são meramente legumes? Ou verduras? Será que a cenoura se encaixa na gaveta das verduras, mesmo com cor distinta? Qual é a designação geral? Vai-se a ver e não passam de sinónimos…

Ah, o dia que sucede a véspera. Normalmente, a minha avó e a minha mãe recolhem os fundos de um pote com o destino já traçado: o do cabrito. O pote não existe realmente, pelo menos nunca me apercebi de tal acontecimento. Além disso, já considerei que elas licitassem o preço do animal no talho ou no supermercado como se de uma obra de arte se tratasse. O cenário é mentalmente representável, mas dantesco.

Ao que parece, disseram que o Cabrita se esgotara. A gente janta outra coisa!

3) Ora, o Natal. Algumas músicas de Natal amolam uma vontade imensa em ser surdo, mas surdo sem estar com qualquer tipo de brincadeiras. Já toda a gente sabe quem é que a Mariah Carey quer para a sua quadra (encontrei mais um sinónimo), que o Michael Bublé, na sua versão, está farto de avisar a vinda do Pai Natal e que a Ariana Grande está rouca por pedir incessantemente – ao mesmo destinatário – se a sua possível paixão estará lá, na mesma data, um ano volvido. Subentende-se um sinónimo comum aos três exemplos ilustrativos.

O primeiro sinal para o fim do cataclismo e para o enviesamento daquilo que resta do espírito natalício corresponderá ao facto de alguma destas três almas realizar uma versão do tema Fairytale of New York.

É aqui que solicito a atenção de todos os que lerem esta diretiva! Nada de álcool para estes três meninos!

Palavras-chave: sinónimos, Natal, música, comida, luzes

Eis o resumo perfeito. Ou abstract. Ou sinónimo.

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