OPINIÃO: O que há para além da guerra ucraniana

Simão Mata, Psicólogo

Talvez não tenhamos que ler todos os artigos de imprensa, nem todos os comentários televisivos, nem todas as crónicas de jornal para condenarmos, sem reservas, as atrocidades de uma guerra. A pulsão de morte que ela revela (e que nos habita a todos…) deveria ser contrariada pela força de Eros, da vida, da fraternidade entre os povos, enfim, do amor. Esta foi, pelo menos, uma das ideias que Sigmund Freud defendeu na sua carta sobre a Guerra dirigida a Albert Einstein em 1932. Eis um excerto desse documento:

“Se a disposição para a guerra for um produto da pulsão de destruição, o mais fácil será apelar para o antagonista desta pulsão, para o Eros. Tudo o que estabelecer laços afectivos entre os homens deve actuar contra a guerra.” A violência, sob quaisquer circunstâncias, é injustificável e revela a animalidade que nos habita ainda, deitando por terra a nossa pretensa superioridade moral, ética e civilizacional.

A guerra que toma palco por estes dias na Ucrânia não é, portanto, diferente das outras guerras a que o Mundo tem assistido ao longo dos tempos e na atualidade. Não há guerras de segunda ou de primeira devendo todas, sem exceção, ser condenadas com a mesma veemência e determinação. Não há, por consequência, povos que não merecem guerra e outros que, por variadas circunstâncias, até toleramos a sua existência. Importa, pois, que as condenações de uma não sirvam para sacudir a água do capote daqueles que também as realizaram e tentam passar pelos pingos da chuva do mediatismo internacional.

Falo, concretamente, dos Estados Unidos da América. Para apenas nos focarmos no século XX, a política imperialista, expansionista e militarista deste país traduz-se na instabilidade e na criação de focos de tensão em várias regiões do globo, a pretexto da “democracia” ou da “liberdade” dos povos que invadem. Foi assim no Vietnam, no Laos, no Camboja, na Jugoslávia e, mais recentemente, na Síria, no Iraque e no Iémen, mas os exemplos não terminam aqui. A missão foi sempre simples: exportar uma “democracia” que estranhamente (?) deveria ser inculcada com base na força militar, ao arrepio do Direito Internacional e da carta da ONU que contempla a liberdade de cada povo à sua autodeterminação. Foi assim também na Ucrânia em 2019 com os EUA no apoio formal a um governo de extrema-direita liderado pelo comediante Zelinsky que agora combate nas ruas junto do povo ucraniano. Onde estarão agora os amigos norte-americanos do presidente ucraniano que tanto o ajudaram a subir ao poder? Biden tem praticamente assistido, do outro lado do Atlântico, ao conflito, mas sobre o qual a política externa norte-americana contribuiu largamente. E ainda viu alguns objetivos económicos serem alcançados: a quebra da venda de gás russo à Europa via Nord Steam 2 e o bloqueio de operações bancárias com bancos russos. Eis que a correlação de forças no plano internacional se inclina mais no sentido dos EUA, após décadas de claro declínio e retrocesso face a outras potências. Mas disto pouco se fala ou escreve.

As encruzilhadas de uma guerra convocam sempre urgência na análise e a uma rápida culpabilização dos envolvidos. As situações, as imagens, as notícias que sobre ela proliferam e o horror dos cenários levam-nos a uma saída argumentativa justificada mas nem sempre acertada. Necessitamos de análises alargadas sob o que está em causa na questão ucraniana e, sobretudo, que se chamem todos os envolvidos (sobretudo os mais invisíveis e mudos…) à responsabilidade pela escalada de violência que todos estamos tristemente a assistir na Ucrânia e noutras latitudes por esse mundo fora.

Paz sim, guerra não.

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