Desinteresso-me até certo ponto
Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.
– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.
Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.
Para principiar, diminuta ligeireza. Quem sabe se não flui. Normalmente, no que respeita à ligeireza, muno-me de material de sobra para precaver a existência de momentos em que a seriedade me acude. Mais vale um homem precavido do que dois homens que tentam equilibrar a vida na corda que bamboleia. Aquilo que parecia enformado para constituir um dito popular escoou para a típica frase que é dita quando aquele copo de vinho faz disparar a taxa de alcoolemia. Depois, o descalabro. Mundos são proferidos, fundos são anunciados, cavam-se assuntos que não lembram ao Diabo. No poisar da caneta, a ressaca. Boca seca, enxaqueca que zumbe gravemente e uma aspirina. Ligeireza trata-se com ligeireza.
A sorte, elemento sinonímico para (Afro)Fado, protege os audazes. A temeridade deixou de me desejar no momento em que não quis colocar a planta na água frígida do rio. Ainda assim, o Couraíso interpelou a equipa de seguranças pelo intercomunicador e enviou a diretiva da cedência de passagem. Carregado até ao tutano – a meu ver, audácia é subir e descer a pequena ribanceira com tralha até aos dentes -, dirijo-me à zona 13 e deposito a casa, o closet e os equipamentos rudimentares que acondicionavam os alimentos para a semana. A amizade resplandecia, os abraços torravam a saudade. Aquele presente bateu. A primeira agitação tropical deu o ar da sua graça, mas rapidamente se envergonhou.
Desengane-se, todavia, quem pensa que o Couraíso equivale somente à confraternização sã entre os festivaleiros, às bebedeiras (e outras distrações) que intensificam e dão cor – negra, por vezes – à experiência e à troca de afetos (abraços, beijos e outras fórmulas) entre conhecidos e desconhecidos. A percentagem que confio ao que acabei de enumerar resvala nos 70%. Os restantes 30%, prezado leitor, correspondem ao sufoco de não acampar com a dignidade que achamos merecer. Embora seja insuficiente para arruinar a experiência de ser parte integrante do Vodafone Paredes de Coura, o valor caustica o lado ao qual cantamos a cantiga de embalar no fim de semana anterior: as possíveis preocupações a nível de conforto.
Durante a estadia, contemplei acampamentos semelhantes a mansões e a palacetes: fogões com três/quatro bocas para cozinhar diferentes petiscos (desde as entradas, passando pelo arroz de polvo, até às sobremesas requintadas que figuram em restaurantes com estrela Michelin), toldos que dissipavam qualquer raio de sol que incidisse sobre as cabeças presentes; mesas mais extensas do as que possuo em casa, pernas de presunto expostas sobre o suporte de madeira que prometi comprar assim que me duplicarem o salário, geleiras topo de gama com dois andares e portadoras de cofre não fosse a cerveja a estalar desaparecer, focos de luz capacitados para iluminar a alma viva de Ian Curtis ou a performance dos The Jesus and Mary Chain na presente edição e tapetes imaculados a ornar o hall que separava as tendas do restante espaço; por oposição, o grupo no qual estava inserido detinha mudas de roupa, higiene pessoal, alguma loiça, dois pequenos dormitórios, um banco comprado à pressa e duas cadeiras enferrujadas.
O incómodo (parcial) conduziu-me a Fédon. Rememorei, com reconforto fugaz, alguns princípios da Teoria da Anamnese. “Para que alguém se lembre de algo, é necessário que a tenha sabido no passado”. “Uma recordação pode ter como ponto de partida um objeto semelhante ou um objeto dissemelhante”. Após um breve cochilo, a velocidade superior, o sonho raptou aquele pensamento. E, “como sonhos são pedidos expressos dos Deuses, ignorá-los redunda em desrespeito pelas entidades superiores”. Quando acordei, senti-me 20% Beócio porque, por momentos, primei o prazer corporal e os luxos que releguei assim que construí a lista de objetos/materiais necessários. Mal almocei e bebi os três copos de vinho que me cabiam, esqueci o assunto.
Neste contexto, a “bela esperança” representaria o eleger de um – ou vários! – concertos que registassem sinais vitais para lá do Couraíso e que se imortalizassem nas homenagens tecidas posteriormente ao festival. Valeria a pena armar-me em Endimião e pedir a Zeus concertos inesquecíveis se ele me vai propor a utilização de tampões para os ouvidos? (Não iria perder tempo a refletir acerca da imortalidade da alma porque nada me diz: deixo os sistemas hipotético-dedutivos e as concepções espirituais mais ou menos sistematizadas para a gente que considera os comediantes “charlatães”. Tenho preocupações mais prementes e uma delas radica no acampar confortavelmente em festivais de verão). Não me levem a mal, adoro usar tampões, principalmente quando os ouvidos contactam com a água ou quando não consigo descansar, assombrado pelo vizinho de cima que assiste ao Grease uma vez por semana com colunas Marshall Woburn III; contudo, não faria o esforço de usar tampões sempre que fosse a um concerto. Seria o mesmo do que usar camisa e pullover sempre que fosse mergulhar.
Quem é que eu quero enganar? Zombo de vós, leitor, mas acabo amarfanhado na própria cilada. A “bela esperança” é, sobretudo, montar as tralhas com tamanha correção e vaidade. Ouvir 32 concertos é terciário. Primeiro, o palais dans la nature, depois o jambon e as desserts e, por último, as malhas.
A utilização do francês livrou o corpo de texto da ligeireza, sabem? É o que dá ter excelentes avaliações nos três anos em que a disciplina foi lecionada.
Para despedir, um pedido de desculpa pela palhaçada que terminou de ler. Não durmo em condições há uma semana e tenho os horários trocados. Abordarei o tema adiante, assim que achar conveniente.