É comum ouvir-se que “com trabalho e perseverança, tudo se alcança” e João Coelho, um jovem de 25 anos natural de Ponte de Lima, é o exemplo disso mesmo. De objetivos sempre bem definidos, alcançou, há dias, uma das maiores vitórias da sua carreira, sagrou-se “Cozinheiro de Ouro” na Suíça.
Ao recordar-se do momento em que ouviu o seu nome como vencedor, fala num sentimento de “trabalho concluído com êxito”, uma vez que tinha esta conquista “em mente há bastante tempo”: “Foi uma sensação de alívio”. “Foi algo muito importante para mim! Foram ali uns minutos em que uma pessoa não sabe bem onde é que está, mas foi algo bastante especial”, confessa ao Jornal Referência.
Nesta competição depositou “muito trabalho, muito investimento profissional, pessoal, monetário envolvido” e, por isso, sublinha: “Não é um trabalho de apenas um ano, é desde que entrei na Cozinha até chegar onde estou hoje. Faz tudo parte e foi algo bastante bom que eu já ambicionava há algum tempo”.
Para seu ajudante, escolheu Bruno Schneider, que está ainda em formação, por ser uma pessoa “calma e dedicada”: “Trabalhámos muito bem os dois em equipa”.

Durante “um bocadinho mais de um ano”, João Coelho focou-se em tudo o que era necessário para esta competição, o “maior e mais prestigiado concurso suíço de cozinha ao vivo”, “Le Cuisinier d’Or”. Em outubro, decorreu a meia-final, em Baden, que escolheu os cinco candidatos apurados para o derradeiro dia: “A partir da meia-final, é-nos dado outro tema a respeitar e temos três meses e meio até à final para a criação de tudo isto e cinco horas e meia de prova no dia, com um ajudante”.
Cada candidato teve de fazer um prato de peixe e outro de carne, servidos em grandes travessas para 12 pessoas, um molho e três guarnições diferentes para cada um: “No total, fizemos 96 guarnições para o peixe e para a carne, fizemos duas peças de peixe, duas peças de carne, dois molhos diferentes. Estamos aqui a falar de muito, muito, muito trabalho”.

No dia da final, em Berna, João Coelho apresentou um prato de peixe lúcio do lago, com aipo e cebola caramelizada e um prato de bife da vazia de novilho, com molho de zimbro e pera. Contudo, o sub-chefe do Le Restaurant de l’Hôtel de Ville de Crissier não esqueceu as suas raízes portuguesas e acrescentou um apontamento no prato que era um rissol tradicional, mas “mais elaborado” ao seu estilo.
“Tento sempre dar este toque das minhas origens, não muito da minha zona especificamente, mas aqui falar de Portugal um bocadinho, sim. Tento sempre fazer isso quando posso e quando realmente acho que é justificado e foi uma das coisas que eu pretendia aqui para a final para dar aquele toquezinho português”, explica.
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A paixão pela Cozinha faz com que recorde as suas raízes
Quando pensa em como surgiu a paixão pela Cozinha, João Coelho viaja até quando era criança: “Eu nunca tive família que tenha restaurantes ou que esteja ligado a esta área, mas sempre tivemos este momento de partilha à mesa com família, com amigos, este momento de comer bem… Os meus pais sempre cozinharam bem, as minhas avós também sempre cozinharam muito bem”.
“Acho que faz parte um bocadinho da nossa infância, da nossa cultura gastronómica e acaba por nos ficar na cabeça. Está tudo na base”, acrescenta.
O jovem já participou em vários concursos e, em 2017, venceu o Jovem Talento da Gastronomia, que acredita ter sido “um bom passo e um bom impulso para tudo isto”.
“Eu sempre tive objetivos claros de estar onde estou hoje e na posição onde estou hoje para a qual sempre trabalhei muito. Tudo se faz com muito trabalho. Era sempre algo que teve nos meus objetivos. Felizmente, consegui. Se calhar, ainda mais cedo do que o que previa na minha cabeça, isso acaba por ser bom e dá aqui algum valor”, admite João Coelho.
“As competições vêm porque nos fazem crescer, seja a nível pessoal, seja a nível profissional, fazem-nos aprender a trabalhar contra nós mesmos e são a melhor forma para nos melhorarmos em pouco tempo”, considera.

“Eu vim [para a Suíça] porque em Portugal não havia nenhum três Estrelas Michelin”
Há cinco anos, João Coelho tomou a decisão de emigrar para a Suíça para alcançar outro objetivo: trabalhar num restaurante com três Estrelas do Guia Michelin.
“Acho que muitas vezes temos aqui esta cena do emigrar porque vamos a correr atrás do dinheiro ou outras coisas mais específicas. Eu não vim por nenhuma dessas razões. Eu vim porque em Portugal não havia nenhum três Estrelas Michelin, continua a não haver, infelizmente”, conta. “Eu queria trabalhar num três estrelas Michelin e queria trabalhar neste restaurante em específico, sempre foi o meu objetivo. Foi por isso que vim para a Suíça, senão nunca teria vindo”, completa.
João Coelho trabalha no Le Restaurant de l’Hôtel de Ville de Crissier desde 2020, onde também estão vários chefs de nacionalidade e origens portuguesas.
Em declarações ao Jornal Referência, o restaurante refere que “é sempre um enorme orgulho” para o chef suíço Franck Giovannini, que já ganhou por duas vezes o “Le Cuisinier d’Or”, e para toda a equipa ver “jovens chefs a entrar em competições com vontade, paixão e determinação e ainda mais quando as vencem”.
“Esta é a mais prestigiada e difícil competição na Suíça, que exige um grande rigor e formação. O restaurante tem sido sortudo por ver vários dos seus chefs no degrau mais alto do pódio e a vencer o título de ‘Le Cuisinier d’Or’ e é sempre com grande emoção e honra”, conclui.

Regressar a Portugal está nos planos?
Para o futuro, João Coelho revela que pretende “continuar sempre a crescer e a tentar fazer melhor porque ganhar um concurso não é significado de ser o melhor do mundo ou não”: “É continuar a fazer o trabalho que tenho feito até agora e tentar sempre ser o melhor, ser uma das referências, seja a nível português, seja a nível internacional um bocadinho para o futuro, mas continuar com a humildade e com o trabalho que tenho vindo a desenvolver”.
O país onde nasceu e que o viu crescer está “sempre em mente”, agora, voltar a viver cá é apenas uma possibilidade: “Depende de vários fatores e depende de muita coisa. Não posso dizer que irá acontecer ou não, mas Portugal é sempre uma opção, claro que sim, porque é o meu país”.
Como conselho a outros jovens, João Coelho partilha: “Tentem ir ao mais alto possível e, mesmo que não consigam chegar ao mais alto possível, pelo menos, chegarão lá perto e isso pode ser um dos segredos para o sucesso. É ir sempre, tentar ao máximo”.
“Nesta área, eu sempre tentei vir a um três Estrelas Michelin, a um dos melhores restaurantes do mundo, aquele que já foi o melhor restaurante do mundo. Tentei, se não tivesse conseguido, pelo menos, tinha entrado aqui nalguma coisa que me pudesse fazer chegar perto e é sempre ter esse objetivo sempre muito alto, que é o mais importante, e confiança em nós”, remata.
Foto: DR