EM TELA: “Ainda Estou Aqui”, Memória, Resistência e o Eco das Ditaduras no Tempo

Em Tela, Ainda Estou Aqui

“Ainda Estou Aqui” é o filme que trouxe o cinema brasileiro, uma vez mais, aos grandes holofotes de Hollywood, descentralizando assim as estatuetas douradas e as passadeiras vermelhas da cultura estado-unidense.

A obra é inspirada num caso verídico, no desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva, em 1971 e da luta da sua família. O filme de Walter Salles vai muito além de uma mera denúncia. É sim um ato de resistência, uma luta pela memória de todos aqueles que desapareceram e que foram torturados durante a ditadura militar brasileira, procurando ainda criticar subliminarmente os reflexos dessa violência política ainda hoje presentes no atual cenário político.

A cinematografia do filme convida-nos a entrar no clã social de Eunice e Rubens, com almoços infindáveis, gira discos e dança. O início do filme é marcado por recorrentes convívios, por uma casa cheia, uma família envolvida em tons amarelos de por de sol, cheiro a maresia e a verão. É bom como as imagens e a nostalgia provocada pelas gravações analógicas que acompanham a história conseguem despoletar essas sensações no espetador. Apesar deste ambiente acolhedor, é inegável um constante desconforto generalizado. Paradoxalmente a este paradigma familiar sentimos o confronto com a realidade da época, com rusgas aleatórias, tanques militares a circular no fundo da cena, relembrando-nos – para quem por momentos se esquece – que a narrativa desenrola-se nos anos 70, quando o Brasil era governado por uma ditadura militar.

O poderio e a opressão militar, apesar de em segundo plano, são uma presença constante no filme, como um olho de Orwell que tudo vê e tudo sabe. Numa era marcada por um ainda mais cerrado machismo estrutural, onde a mulher era sinónimo de lides domésticas e lar, Eunice desconstrói isso tudo, carregando nas costas a sua família depois de a mesma ser desintegrada pela detenção de Rubens, seu marido. Fernanda Torres representa esta mulher de forma icónica e irrepreensível. Não são precisos diálogos muito densos e longos para nos arrepiarmos com tudo o que passa pelas expressões faciais e o olhar vazio da personagem, toda a dor e a mágoa da perda.

Fernanda Torres, seguindo – e mesmo, em última instância, aprimorando – o legado de sua mãe, Fernanda Montenegro, e o filme “Ainda Estou Aqui”, fundem-se num só. Galardoada, e bem, já com o Globo de Ouro para melhor atriz (a primeira brasileira a consegui-lo) está agora na corrida aos Óscares, apresentando-se como uma firme e coerente candidata ao mesmo.

A cumplicidade era um traço central desta família, materializando-se isto através da casa em que moravam, um sítio bom e acolhedor onde todos queríamos entrar. Ao longo do filme é visível o deteriorar desta realidade, onde esta vida social é preenchida por um vazio. Um vazio, por um não saber o que aconteceu a Rubens, esta dúvida existencial que ocupa tanto espaço, na casa, em todas as personagens e no próprio espectador.

A forma perversa como as ditaduras enterram toda uma família na dúvida de onde está Rubens é profundamente triste e sádico, como Eunice o diz, a “ tática do desaparecimento é uma das mais cruéis” porque não se condena apenas quem desapareceu, condena-se toda a gente à sua volta.

“Ainda Estou Aqui” não é apenas um filme histórico e memorável, é, muito possivelmente, o melhor e mais urgente filme que 2024 nos deu. É urgente vermos este filme pela forma como a sua história ecoa subtilmente ainda nos nossos dias. É urgente que os saudosistas com pouca consciência histórica e que arrogantemente gritam “no tempo da ditadura é que era” o vejam. É urgente para quem tem medo, quem sente diariamente as suas democracias a serem fragilizadas e sucateadas. É urgente para quem está em “cima do muro”, para quem ingenuamente acredita que os seus direitos humanos não estão em risco, que o Estado Social de Direito e a Democracia são garantias vitalícias. “Ainda Estou Aqui” é urgente para todos nós, não só no Brasil mas no mundo inteiro.

Estrelas: 10/10

Imagem: DR/Jornal Referência

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