OPINIÃO: Toda a gente tem conhecimento de que, futuramente, o Provedor do JN me irá cutucar

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

Desinteresso-me até certo ponto

Se pensarem bem, aquilo que é vulgar e desinteressante pode suscitar curiosidade.

– “Uau!” – exclamam vocês impressionados com a genialidade.

Todos rimos muito, antes de alguém me acertar com um pau de marmeleiro nas costas.

Toda a gente tem conhecimento de que, futuramente, será comida para o bucho dos necrófagos, caso corra o risco de abandono no momento da sepultura? Espero que sim. Toda a gente tem conhecimento de que, futuramente, será facilmente deslindado, na eventualidade de fugir à monotonia numa taberna do Interior do país situada num beco com pouca luz, telefonia com fios e terra batida? As tecnologias policiarão o passo, mesmo quando a vítima estiver suspensa sobre uma mesa de banco corrido a segurar uma JB pelo gargalo. Toda a gente tem conhecimento de que, futuramente, os pais, na mundivisão da cria, são mais colegas do empréstimo de lápis de cera do que responsáveis por lhes extrair a cera dos ouvidos enquanto estes interiorizam o modo de utilização de um cotonete? Diz-se que o respeito tem soçobrado e eu tendo a concordar. Toda a gente tem conhecimento de que, futuramente, o grupo musical Humanos, sob a pena máxima de ironia, será atirado para o sótão escuro da casa dos esfalfados progenitores com o objectivo de temperar a vida dos filhos com (alguma) Humanidade?

Apesar do estilo pouco convencional do autor deste texto, o leitor lê as quatro anáforas que esbarram na oitava palavra de cada frase e esboça uma pergunta, com um pequeno elogio na trincheira. “Está giro, sem dúvida. É anormal esta técnica em texto. O pensamento encadeado e lógico, a argumentação esgrimida com vocábulos que atingem raramente a oralidade e os outros recursos expressivos faltaram? Estão doentes, baldaram-se só porque sim ou existe outro motivo?”. O autor responde, porque não é pessoa que se fique:

– Vejo que utilizou uma anástrofe, pelo menos. Sob o prisma da espectacularidade, o que acabou de fazer é poucochinho, poucochinho, poucochinho. Repita lá a graça e vamos lá para fora resolver isto!

Toda a gente tem o conhecimento de que, futuramente, os negócios das pequenas, médias e grandes empresas portuguesas passarão pelo crivo, pela literacia económico-financeira, pelas prospecções de mercado ao nível de concorrência e do público-alvo, pela rentabilidade do negócio e pelas estratégias de marketing gizadas por Cristiano Ronaldo e Cristina Ferreira? O fabrico de hijabs que só tapem os olhos e de calçadeiras com a imagem da Virgem Maria vendem-se, dentro de momentos, num centro comercial perto de si. Também se venderão nos mais distantes, certamente. Para quê limitar o consumidor? Se morar em Bragança e pretender comprar uma destas inovações no Tavira Plaza, está no seu direito. Toda a gente tem conhecimento de que, futuramente, as capas para gadgets dominarão o mundo? A meu ver, compreensivelmente. O número de coleccionadores de abrigos para os telemóveis e sócios VIP de La Casa de las Carcasas aumentou significativamente nos últimos anos. Muitos alardeiam a protecção mais recente que adquiriram, justificando o facto de o ecrã estar de repouso e defendendo a ausência de relação na primeira semana de vida. Semelhanças com a comunidade incel? As pessoas que se dignam a açambarcar carcasas praticam celibato tecnológico voluntário? Denominar-se-ão incarca? O “estar à frente do tempo” significa levantar questões como as que terminou de ler. Está ao alcance de poucos, não se amesquinhem.

“As anáforas viram-se reduzidas a metade, duas foram expulsas. O que se pretende alcançar com as questões concatenadas e sem ligação ou nó que as una? Produzir o efeito de gargalhada? Listar postas de pescada sem fundamento científico ou sem solidez estatística/analítica e, posteriormente, lançá-las ao deus-dará? Ser um fã inveterado de permanente confronto e exímio na arte de semear o caos, cavando sucessivas covas por catalogar?” O autor começa a enfurecer e a prova disso são as rugas que, entretanto, se formam:

– Reduzi as anáforas porque quis. Mais simples do que isto, só um pão sem fatias ou productos esparramados. Era mais o que faltava agora explicar o mecanismo que alicerço à forma de escrita. Este leitor pensa que é quem? Um ensaísta consagrado? Um cronista de nomeada? Um contista em ascensão? Vá apanhar bonés e não me chateie.

“Ui, ui, ui… ele saiu melindrado com as observações. Fez dói-dói, foi? Feriu a sensibilidade do querido? Por acaso, sou formado em Línguas, Literaturas e Culturas. Percebo da poda, não critico só por criticar. O que o senhor faz é “tiktokear” a escrita e, a meu ver, isso é um crime “vocabulento”. Percebeu? É a amálgama e o resultado da junção da palavra “vocábulo” com a palavra “violento”. Se calhar, é demasiado para a sua gnose. Passo a explanar: constrói frases com tempo de leitura de aproximadamente 15 segundos e, derivado do cariz absurdo e profundamente despido de substância das mesmas, guia-nos para um cosmos que esborda bizarria; o leitor, embrutecido imediatamente, fruto da colisão com a tontice, é engolido pela torrente. Ficou claro?”.

Toda a gente tem o conhecimento de que, futuramente, os reality shows serão uma extensão de reuniões Zoom? Os computadores – ou outras ferramentas tecnológicas que ainda não têm nome – estarão conectados com a régie do sítio e tudo funcionará às mil maravilhas. Nas primeiras três edições, talvez surjam problemas técnicos e contratempos do género. À quarta, tudo estará optimizado e o ecrã a transmitir outros pequenos ecrãs revolucionará, novamente, o formato televisivo. Considero imperceptível que, em 2025, a equação da audiência omita esta parcela. O problema de Portugal redunda sempre na mesma tecla: visão.

“Esta é, sem sombra para qualquer zweifel, o pior trabalho escrito no qual aterrei o olhar. Como é que é possível que uma pessoa seja tão energúmena ao ponto de ponderar a realização de um reality show sem o seu sal? O autor está fora dela, está mesmo. Regresse ao planeta Terra, ao mundo real. A minha zweifel é só uma: qual a razão para haver espaço para o propalar de alarvidades por um alarve desta estirpe?”

– Ai agora não diz que a anáfora reduziu para metade? Já não sabe dividir números mais pequenos que o “2”? Realmente, a moral deste indivíduo é imaculada. Se eu “tiktokeio” a escrita, o senhor destrata-a. Zweifel? A única palavra da língua alemã que tem a permissão para me ser proferida é zeitgeist. Tudo o resto, não aceito. Zeitgeist expressa alguma raiva, como qualquer palavra alemã, mas é o espírito do tempo e basta. Está desculpada por isso. Além disso, se quer parecer erudito, utilize o francês, besta quadrada.

Este autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Romão Rodrigues, Mestrado em Jornalismo e Comunicação

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