Esta segunda-feira, 28 de abril, Portugal viveu um momento histórico, mas não pelos melhores motivos. O país ficou sem eletricidade durante várias horas e muitas foram as informações falsas e não confirmadas que circularam pelas redes sociais e, posteriormente, de “boca em boca” a quem não tinha como aceder à internet.
Durante o dia, foi divulgada pelo WhatsApp (e não só) uma mensagem que relatava uma suposta notícia da CNN, que citava declarações falsas atribuídas à presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, referindo um alegado “ataque russo”. Tais declarações não foram proferidas nem sequer publicadas pela CNN e, até ao momento, não é conhecida a causa exata do que motivou este apagão.
Outras publicações afirmavam que o apagão, que afetou também outros países europeus, tinha sido causado por um “fenómeno atmosférico raro” ou ainda que a situação poderia demorar “72 horas” até ficar resolvida. Ambas as informações foram posteriormente desmentidas pelas entidades oficiais a cargo da resolução deste problema.
Também foi mencionado que a causa desta falha de eletricidade estaria num “avião de combate a incêndios” que teria danificado uma linha de muito alta tensão em França. Esta informação apenas não era atual, uma vez que realmente houve em 2021 um acidente com um avião de combate a incêndios.
Estas “fake news” (notícias falsas) foram mesmo transmitidas por alguns meios de comunicação e até agências de notícias – e depois corrigidas -, o que demonstra que todos estão suscetíveis a este tipo de conteúdos. Torna-se cada vez mais difícil evitá-los e ainda mais importante estar com atenção ao ler qualquer conteúdo online.
Comissão Europeia desmente declarações
No seguimento da propagação da notícia falsa sobre um alegado ataque à Europa, a Comissão Europeia veio desmentir as supostas declarações escritas no texto que circulou.
“Era uma declaração falsa. Todo o artigo era falso e foi falsamente atribuído a um meio de comunicação social reconhecido”, confirmou Paula Pinho, porta-voz principal da Comissão Europeia.
“Percebemos, assim, até que ponto pode ir a manipulação da informação. Houve reações a pensar que se tinha tratado de um ataque deliberado, o que pode ter consequências muito graves. Esta situação compromete a confiança em fontes e organizações credíveis e pode mesmo dividir a nossa sociedade”, adiantou também, mencionando que a Comissão Europeia tem “vários instrumentos para combater a manipulação da informação”.
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O que se sabe até ao momento?
Esta terça-feira, a REN – Operador de Rede de Transporte informou, através de um comunicado, que, “um pouco antes das 23h30 do mesmo dia”, já tinha reposto o funcionamento de todas as subestações da Rede Nacional de Transporte (RNT). “A REN, em estreita colaboração com os Operadores de rede nacionais e internacionais, conseguiu assim repor a RNT antes do fim do dia de ontem, estando a rede perfeitamente estabilizada”, acrescentou.
Durante a manhã, o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, garantiu que a normalidade estava largamente alcançada, com todos os consumidores de eletricidade abastecidos e os principais serviços restabelecidos. Além disso, confirmou que não há indícios de ataque na origem do apagão e que não são necessárias restrições de consumo.
Também durante a tarde desta terça-feira, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, deu uma conferência de imprensa na qual fez um ponto de situação do país, informando que o Governo vai criar uma comissão técnica independente. Este organismo, que funcionará na próxima legislatura, deverá fazer “uma avaliação aos mecanismos de reação e gestão desta crise, da resiliência e recuperação do sistema elétrico, à resiliência das infraestruturas e serviços críticos e também ao funcionamento do sistema de proteção civil, de comunicações e da área da saúde”.
Ao sublinhar que a origem deste “problema sério” não foi em Portugal, o governante anunciou ainda que vai solicitar à Agência de Cooperação dos Reguladores de Energia da União Europeia uma auditoria independente aos sistemas elétricos dos países afetados “para o apuramento cabal das causas que estiveram na origem desta situação”.
O que Portugal fez para repor a energia?
De acordo com as declarações de Luís Montenegro em dois momentos, para que o país voltasse a ter eletricidade, foi feito o “início do sistema”, ou seja, o “reinício de produção de energia”: “Temos, neste momento, o sistema a funcionar de forma autónoma”. Tal acontece porque Portugal tem “capacidade para reiniciar os sistemas de produção de energia e depois o seu transporte e distribuição”.
“Isolámos toda a rede elétrica nacional das interligações internacionais, que no nosso caso são exclusivamente com Espanha. Acionámos todos os procedimentos para reativar os grupos geradores nacionais, nomeadamente, na Tapada do Outeiro e em Castelo de Bode para restabelecer o fornecimento da eletricidade a todos os clientes”, explicou. O governante sublinhou, por isso, que a falta de energia não foi causada pela “falta de capacidade de produção e distribuição em Portugal”, mas sim por causa dessa ligação.
No futuro, o Governo quer que a Central Termoelétrica da Tapada do Outeiro (Gondomar) continue até 2030 com esta função de “black start”, ou seja, um mecanismo de recuperação rápida de energia, se houver uma situação semelhante à desta segunda-feira. O primeiro-ministro expressou ainda vontade de inserir mais centrais, como a do Baixo Sabor (Torre de Moncorvo) e do Alqueva (Moura), nesta mesma função de “black start”.
“Se há ilação que já podemos tirar é que a central da Tapada do Outeiro e de Castelo de Bode são insuficientes para habilitar o sistema a um reinício numa situação de crise, como ontem vivemos. Insuficiente no ponto de vista da rapidez”, comentou Luís Montenegro. “Já sabemos que são suficientes do ponto de vista da eficácia, por isso, temos a situação restabelecida, mas o nosso entendimento é que devemos ter um mecanismo que torne ainda mais célere, mais rápida, mais eficiente a capacidade de recuperação e superação de uma situação como a que vivemos ontem”, terminou.
E-Redes alerta para possíveis fraudes
A E-Redes (principal operador da rede de distribuição de energia elétrica em Portugal Continental) informou, através de um comunicado, para “eventuais situações de burla que possam acontecer na sequência do evento excecional de dia 28 de abril”.
O operador assegurou que, “exceto em casos de comunicação prévia, não é necessária nenhuma intervenção junto dos contadores de eletricidade” e reforçou que “nunca será cobrado diretamente aos clientes qualquer valor quando são feitas estas deslocações”. Estas deslocações “apenas terão lugar caso tenha havido uma comunicação prévia e sempre via canais oficiais”.
Espreitem aqui algumas dicas sobre como detetarem uma notícia falsa e aqui sobre como se protegerem do cibercrime.
Foto: Snapwire/Pexels